Terra Magazine

31 de maio de 2009

“Diversidade é a palavra da moda. Mas a visão da cultura ainda é elitista”, diz professor da UfBA

Tags:, , , , - ana paula sousa às 12:43

Durante três dias, Salvador esteve mergulhada em discussões culturais que a mídia desconhece.

Durante o 5º Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura (Enecult), encerrado na última sexta-feira, foram apresentados 250 trabalhos de universidades espalhadas pelo Brasil.

Entre as falas dos pesquisadores brasileiros e dos convidados internacionais, o que se viu foi uma discussão que, cada vez mais, afasta-se da visão tradicional de cultura.

“Além do tema da diversidade, têm se tornado comuns as discussões da cultura como gênero, até em detrimento de temas tradicionais, como artes plásticas e literatura”, observa o professor Albino Rubim, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), coordenador do encontro.

Nos chamados estudos da cultura, levados a cabo por áreas diversas do conhecimento, como letras, sociologia e comunicação, cultura nada tem a ver com erudição.

“Trata-se de uma visão ampliada, de uma visão antropológica da cultura”, diz Rubim.

A questão da diversidade cultural, tornada tema mundial a partir da aprovação de uma convenção da Unesco, em 2005, também esteve presente com força às mesas.

A Convenção pela Diversidade Cultural, que possibilita a discussão das questões culturais fora do âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC), está na base, por exemplo, da política do setor desenvolvida no Brasil.

A maior atenção dada às culturas populares ou a manifestações religiosas e festivas faz parte dessa diretriz.

Para Albino Rubim, as políticas desenvolvidas pelo Ministério da Cultura (MinC) tiveram, sim, efeito sobre essa produção antes deixada à margem.

“Os setores subalternos passaram a entender que o que fazem é cultura. Uma coisa é a cultura existir. Outra coisa é ela ser reconhecida como tal”, pontua.

Ele admite, porém, que nos setores médios da sociedade, essa percepção ainda é difusa. “Para quem não produz, a cultura ainda é muito relacionada, no Brasil, com a educação. Para as classes mais altas, a cultura ainda está associada à arte, ligada a alguma erudição.”

Outro assunto que permeou o Enecult foi a política cultural.

Apesar de ser ainda um campo recente e disperso no Brasil, o estudo da política cultural protagonizou alguns debates, como aquele que procurou identificar os efeitos da crise sobre a cultura.

A Lei Rouanet, inevitavelmente, veio à baila. Afinal de contas, o mecanismo, por uma série de distorções, acabou por tornar-se sinônimo de política cultural no Brasil.

Para Rubim, a reação de certos setores da cultura às mudanças propostas pelo MinC evidenciam que a diversidade cultural, mesmo que defendida em público por todos, ainda está longe de ser um caminho de fato aceito.

“A palavra diversidade entrou na moda e todo mundo diz que é favor da diversidade. Mas desde que isso não implique na distribuição de verbas”, cutuca o professor.

Encontros como esse de Salvador ajudam a mostrar o quão anacrônicas são certas posturas quando o assunto é cultura.

Leia também:
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29 de maio de 2009

Diretor de Tropa de Elite faz sensacionalismo com a fome

José Padilha tem vocação para a polêmica. Depois de Tropa de Elite, que transformou o capitão Nascimento (Wagner Moura) num hit nacional, ele volta à cena com um filme destinado a chocar.

O documentário Garapa, que estreia hoje em cinco cidades brasileiras, apenas em salas de arte, troca a violência pela miséria.

Desta vez, Padilha faz o espetáculo da fome. E do grotesco. Nas pré-estreias e em sessões especiais, o filme já mostrou sua vocação para a polêmica.

Padilha, escolado depois de Tropa de Elite, ouve as críticas, mas não se abate. Tem sempre um contra-argumento na manga. Diz ter feito um trabalho político e social.

Logo no início do filme, ele afirma que, segundo a ONU, 900 milhões de pessoas passam fome no mundo e apoia-se em citações do geógrafo Josué de Castro para enquadrar seu abrangente tema.

Ele está convicto de que o documentário ajudará a aproximar os espectadores - nós, que nos alimentamos - do verdadeiro sentido da fome.

Mas Garapa tem tamanha necessidade de mostrar “tudo”, de colar-se aos personagens, que constroi-se como um filme de excessos.

Padilha, ao acompanhar três famílias miseráveis do nordeste brasileiro, mostra, sobretudo, a degradação humana. Acaba por transformar aquela gente em objeto visual da provocação.

Ele coloca em foco a fome. Mas exibe também o transtorno psiquiátrico, o alcoolismo, as crianças rodeadas por mosquitos.

À sua maneira, com imagens em preto e branco e o álibi da denúncia, flerta com o sensacionalismo.

A exemplo do que fizera em Tropa de Elite (2007) e no documentário Ônibus 174 (2002), Padilha partiu de uma tese e quis defendê-la a todo custo.

Em Garapa, atingiu limites complicados. O filme, a certa altura, torna-se insuportável.

Padilha considera isso um mérito, pois sua intenção é provocar o espectador, é “aproximá-lo do drama da fome”. Mas, para mim, é um defeito. Estético e ético.

Não há intenção que justifique o voyeurismo diante da miséria humana.

Leia aqui a entrevista que fiz com José Padilha, publicada na edição de CartaCapital que chega hoje à bancas.

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28 de maio de 2009

O número de músicos profissionais explode no Brasil. A dependência do Estado, também

Pesquisa ouve os participantes do programa Rumos, do Itaú, como Jussara Silveira

Pesquisa ouve selecionados do programa Rumos, como Jussara Silveira

No país em que caixinha de fósforo virou instrumento de percussão, é de se esperar que os músicos sempre tenham sido muitos. E bons.

Mas um fenômeno tem chamado a atenção. Se, em 1992, havia 50 mil músicos profissionais no Brasil, em 2006 esse número saltou para 118 mil.

Outros dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) atestam o avanço dessa profissão que, a despeito do grande número de adeptos, é exercida em condições precárias e depende muito do apoio estatal.

Para se ter uma ideia:

- Entre 1992 e 2001, o número de pessoas ocupadas cresceu 16% no Brasil. No setor de artes espetáculos, o salto foi de 67%. Metade desse universo é representado por músicos.

- No ano 2000, houve 894 matrículas em cursos superiores de música. Em 2005, foram 5,2 mil matrículas.

- Apenas 10% dos músicos têm emprego formal. Quase todos os que têm vínculo empregatício trabalham em orquestras ou são professores.

- A Cooperativa de Música registrava, em 2003, 26 cooperados. Hoje, são mais de mil.

- Enquanto apenas 8% da população brasileira tem curso superior completo, entre os músico esse índice salta para 63%.

- 82% dos músicos são do sexo masculino. No caso das mulheres, o instrumento é, quase sempre, a voz.

Esses dados foram apresentados ontem à tarde pela socióloga Liliana Segnini, professora da Unicamp, no V Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura (Enecult), que acontece até amanhã em Salvador.

Para realizar o trabalho, ela debruçou-se sobre os participantes do programa Rumos, do Itaú Cultural, um dos mais importantes do País – ao lado do Prêmio Visa e do Projeto Pixinguinha.

Foram ouvidos 39 artistas selecionados num universo de 2,2 mil inscritos.

A ideia era descobrir em que momento a música deixa de ser hobby para virar profissão e de que maneira a sociedade brasileira encara esse ofício.

Liliana tentou recuperar o pensamento do sociólogo alemão Norbert Elias que, ao falar de Mozart, procurou entender quais eram as pressões sociais para que um músico trabalhasse na corte.

Uma frase escrita por Elias mantém-se intacta:

- Um músico quer ser socialmente reconhecido como artista e ser, ao mesmo tempo, capaz de alimentar sua família.

Liliana, nas entrevistas, percebeu que a instabilidade faz parte da rotina:

- Predominam as formas instáveis e intermitentes. Muitos, mesmo sendo músicos profissionais, exercem outras atividades, como contador, diagramador de jornal, artista visual etc. Havia até mesmo um trabalhador agrícola, que faz música de raiz.

Muitos citam a necessidade constante de “fazer um cachê”, que significa trabalhar na noite.

Trata-se de uma atividade instável, mal remunerada e, em certa medida, frustrante, já que, num bar, o público está mais interessado em beber e conversar do que em ouvi-los.

Também foram recorrentes, nas entrevistas, referências a sofrimento psíquico e casos de depressão.

A pesquisadora descobriu, por exemplo, a síndrome do músico estressado. Nesses casos, o cérebro, simplesmente, deixa de mandar estímulos para os dedos e a execução da partitura torna-se impossível.

Más condições de trabalho à parte, a pesquisa com os selecionados do Rumos revelou que, para todos eles, a internet é um veículo transformador, uma foram de libertação da libertação da engrenagem industrial.

Liliana espantou-se, por exemplo, com o grupo Móveis Coloniais de Acaju (veja aqui), de Brasília, um fenômeno nascido da internet:

- No dia do show, havia uma fila de dois quarteirões no Itaú Cultural, na avenida Paulista. O público sabia deles. Nós, pesquisadores, é que éramos os alienados.

A banda Móveis Colôniais de Acaju é um fenômeno t�pico da era da internet

A banda Móveis Colôniais de Acaju é um fenômeno típico da era da internet

Apesar dos casos de sucesso, a socióloga é menos empolgada com a nova realidade do que os músicos com quem conversou:

- Se eu me ativer à fala deles, direi que as gravadoras estão acabando e que todos poderão criar, produzir e distribuir por meio da internet. Mas, em tantos anos de pesquisa social, não canso de me espantar com o poder de reconfiguração do capital.

Curiosamente, na mesma medida em que miram o mercado, muitos músicos são absolutamente dependentes dos editais públicos e dos recursos vindos das leis de incentivo fiscal.

Para Liliana, a exemplo do que aconteceu na década de 1930, o Estado brasileiro passou a fomentar a formação e a produção musical:

- Levanto a hipótese de que o Estado tem um papel fundamental nesse novo cenário da música. Seja pelas leis de incentivo, seja pela criação de escolas e universidade de músicas, voltamos a ver um Estado presente.

E, sem dúvida, há que se considerar também o que o norte-americano Chris Anderson, editor da revista Wired, chamou de fenômeno da “cauda longa”.

Na era da internet, a oferta aumentou de tal modo que, cada vez mais, a cultura se desenha em forma de nichos.

No lugar dos grandes hits embalados pela indústria, surgiram, nestes anos 2000, os “micro-hits”, os pequenos fenômenos que conseguiram encontrar o seu público.

Não será essa nova realidade um outro estímulo à (tentativa de) profissionalização?

Viajei para Salvador a convite do Enecult

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27 de maio de 2009

Em tempos de invencionices, Ianelli soube buscar o simples

A morte de Arcângelo Ianelli é, simbolicamente, a morte de uma arte que o Brasil tem deixado de admirar.

O pintor, que tinha 86 anos e será enterrado hoje em São Paulo, era herdeiro de uma geração que não teve medo de experimentar, mas tampouco foi refém da ânsia de “inovar” a todo custo – um dos males da arte contemporânea.

Entrevistei Ianelli em 2002, dois dias antes da abertura da retrospectiva que comemorou seus 80 anos de vida, na Pinacoteca.

No dia seguinte, ele sofreria um acidente vascular cerebral (AVC). Nunca mais teria o vigor que, naquela tarde de prosa solta, eu conheci.

Percorrer a residência do pintor, no bairro do Paraíso, em São Paulo, é quase como visitar um museu.

Seu mundo era formado por 12 casinhas adquiridas ao longo de quatro décadas.

Entre alamedas, escadas e corredores, cores, formas e imagens convidam o visitante a redescobrir o sentido da beleza.

Ianelli começou figurativo, tornou-se abstrato e, nos últimos anos de trabalho, aderira aos relevos e esculturas.

Com os expressivos olhos azuis, ensinava: “Se um artista estiver satisfeito, ele para de criar.”

Paulistano, filho de imigrantes italianos que chegaram ao Brasil no início do século XX, Ianelli foi despertado para o desenho assim que entrou na escola. Copiava tudo o que via.

Na década de 1940, aproximou-se de grupos de artistas, como o Guanabara, e virou um observador cuidadoso. “Pintar não era uma profissão, era um destino”, disse, naquela tarde.

No início da carreira, matinha um escritório de representação de seguros, pois não conseguia vender seus quadros.

A situação começaria a mudar em 1967, quando ganhou um prêmio do governo brasileiro e foi passar dois anos na Europa. Ao voltar, decidiu que viveria de sua arte.

“Se, naquela época, o amadorismo do mercado de arte dificultava o comércio, propiciava também maior liberdade criativa.”

Ianelli experimentou diferentes materiais e estilos. Fez uma arte inquieta. Sem jamais perder a coerência.

Com o espírito crítico, definiu assim sua obra:

- Hoje, as bienais descambam para outra coisa, com instalações que as transformam numa espécie de parque de diversões. Os organizadores querem um caráter novidadeiro, mas nem sempre o novo é bom. Eu não busco o novo. Eu busco o simples.

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26 de maio de 2009

Pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, Silvio Santos pode ter cometido crime

Falar sobre a menina Maísa é, sob vários aspectos, falar sobre a sociedade brasileira.

Há Silvio Santos, que a expõe (assista aqui ao vídeo).

Há os pais, que a deixam em cena.

Há o CQC, que a transformou em mascote (veja aqui).

Há os espectadores que, seja na tevê, seja no YouTube, a transformaram em fenômeno de audiência.

Foi, no entanto, a partir de uma determinação legal que o destino de Maísa, ao menos momentaneamente, decidiu-se.

Na noite da última sexta-feira, a Vara da Infância e da Juventude proibiu a participação de menina de sete anos no programa de Silvio Santos.

A decisão foi tomada após Maísa ter chorado duas vezes no ar.

A promotora responsável pelo caso não tem dado entrevistas. Provavelmente, não quer botar mais lenha na fogueira midiática.

Mas, decerto, a decisão nos ajuda a entender o que está em jogo nesse caso.

A menina motiva discussões sobre a tevê, presta-se a análises psicológicas, mas está, também, no centro de uma discussão legal – talvez a menos subjetiva delas.

Para entender as bases da decisão, entrevistei o procurador de Justiça Paulo Afonso Garrido de Paula, um dos criadores do Estatuto da Criança e do Adolescente e professor de Direito da PUC.

Garrido expõe, em primeiro lugar, que o Estatuto tem como princípio básico a proteção integral da criança e do adolescente:

- A proteção se revela no desenvolvimento saudável e na garantia de integridade. Como vários estatutos que dizem respeito aos diretos humanos, o ECA se baseia na dignidade.

O procurador admite, porém, que a medida da dignidade nem sempre é evidente. A Justiça, em geral, leva em conta a idade da criança e os efeitos que determinada situação pode ter sobre o desenvolvimento infantil:

- Devemos fazer a seguinte pergunta: “Tal situação afronta a dignidade da criança?” Submeter a criança a vexame ou constrangimento é crime previsto pelo estatuto.

O professor lembra que remonta à década de 1940 o conceito de “visões terroristas” impostas às crianças.

- Submeter crianças a situações amedrontadoras, assustá-las intencionalmente com um monstro, por exemplo, é desconsiderar um direito básico. Não vi a cena televisiva, mas se o Silvio Santos descumpriu esse artigo, ele justifica a intervenção do Estado.

Outro aspecto que tem sido apontado, inclusive, pela Agência Nacional dos Direitos da Infância (Andi) diz respeito ao trabalho infantil.

A Constituição só permite o trabalho a partir dos 16 anos. Mas qualquer tipo de espetáculo, de circo a cinema, não é considerado trabalho formal e sim atividade artística.

O procurador observa que, nesses casos, é importante avaliar se a atividade prejudica a escola ou mesmo a brincadeira. E pondera:

- Mas isso tem de ser analisado com muito bom senso, uma vez que há também aspectos econômicos. Essa atividade pode, por exemplo, garantir à criança um pé-de-meia capaz de ajudá-la no futuro.

A quem defende que cabe aos pais, e não ao Estado, decidir sobre o que pode ou não fazer a menina, ele explica:

- O sistema normativo visa impor limites à atuação dos pais. Há anos, trabalhei no caso de uma criança de cinco anos que participava de filmes pornôs com a autorização dos pais. O Estatuto abandona a ideia maniqueísta de que a família sempre sabe o que é melhor. Em alguns casos, se os pais são omissos, cabe ao Estado intervir.

Cabe lembrar que o programa do Gugu, também do SBT, foi enquadrado pelo Estatuto da Criança e do Adolescente à época da “dança da garrafa”. O quadro foi proibido por despertar, precocemente, a sexualidade.

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Silvio, o Lobo Mau

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25 de maio de 2009

Criador do orkut dos biliardários quer ajudar a “elite cosmopolita”

Um dia após a publicação do texto Biliardários criam Orkut exclusivíssimo, recebi dois e-mails do the-sphere.com.

Um deles, dizia que, depois de uma cuidadosa análise, meu nome tinha sido recusado pelo site. Bingo.

O outro, para minha surpresa, era assinado por David Manoukian, criador do exclusivíssimo clube virtual:

Dear Ana Paula,

I have read your article published May 19th in Terra Magazine concerning our website.
I personally wanted to thank you for this article.
We remain at your disposal for any new articles you would like to dedicate to our website.

Sincerely,

David Manoukian

Já que Manoukian agradecia o artigo e se colocava à disposição, resolvi perguntar se me concederia uma entrevista.

Dois dias depois, uma empresa de relações públicas sediada na França, Douzal Sarkozy & Sauvage, me escreve. A entrevista seria concedida, mas com a intermediação da empresa.

Hoje de manhã, chegaram as respostas do criador do site que pretende reunir os mais glamurosos nomes do mundo.

Por que você criou esse site?

O conceito nasce de uma observação simples: engolidos pela velocidade do modo de vida atual, homens e mulheres de 30, 40 ou 50 anos, solteiros, casados ou divorciados, simplesmente não conseguem organizar adequadamente sua vida social e seu tempo para o lazer.

Os executivos, absorvidos pelo trabalho, se sentem cansados para organizar uma festa de aniversário ou as férias da família.

Como sou um deles, decidi criar um conceito que atendesse a essa demanda.

Minha ideia é desenvolver uma ferramenta capaz de manter essa elite cosmopolita, exigente em seus gostos e escolhas, em contato com seus conhecidos, para criar uma rede social e profissional que garanta a essas pessoas o melhor que elas podem ter.

O que é, para você, um “estilo de vida” exclusivo?

O primeiro passo para tornar-se um membro desse clube exclusivo é mostrar seus talentos para os outros membros. A seleção se baseia no estilo de vida dos seus convidados. Na verdade, os membros devem dividir experiências, interesses e perspectivas.

A taxa anual tem o intuito de ajudar a manter o site ou serve também como seleção?

Cobramos uma taxa para garantir a seriedade e o comprometimento dos candidatos. Esse valor também nos ajuda a financiar uma série de serviços exclusivos, como festas privadas, spas, ofertas especiais em hoteis cinco estrelas, serviços de jatos particulares. Eu não quis financiar o site por meio de anúncios porque eu acredito que nossos membros não gostariam de ter o ambiente poluído por propaganda.

Eu não fui aceita pelo site, mas, na resposta, vocês dizem que devo tentar novamente. Tenho alguma chance?

Estimulamos os candidatos a tentar registrar-se novamente para que tenhamos o maior número de informações possíveis a fim de fazer uma análise criteriosa.

Não é muito difícil, com uma busca na internet, encontrar boas respostas. Vocês checam a veracidade das informações?

Tivemos o auxílio de empresas de consultoria na elaboração do questionário. A análise é baseada num perfil geral, e não em uma ou outra questão. A comissão de seleção dedica um tempo bastante grande a cada candidato.

Alguns leitores do Babel classificaram como preconceituosa essa seleção. O que você diria a eles?

O site é baseado no comprometimento de que nossos membros encontrarão pessoas com as mesmas experiências e interesses. Se não respeitarmos essa premissa, o site vai se tornar redundante e não vai se distinguir das demais redes sociais.

Quem são os membros do site?

Reunimos nomes de destaque do mundo todo. Há magnatas do mundo dos negócios, donos de grandes escritórios de advocacia, artistas de ponta, estilistas, políticos etc. Mas, para todos eles, uma coisa importante é que seja mantida a confidencialidade.

Quantos países estão representados? Há muitos brasileiros?

Há gente de cerca de 60 países e o Brasil está bem representado, sim.

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22 de maio de 2009

As Figureiras de Taubaté mantêm uma tradição vinda do século XVIII

Não há morador de Taubaté, município a 130 quilômetros de São Paulo, que não saiba apontar a casa de pelo menos uma das “figureiras” da cidade.

Herdeiras de uma tradição que remonta ao século XVIII, as Figureiras de Taubaté fazem parte da cultura que, por ser popular e simples, não raro é vista como insignificante.

“A gente fez isso a vida inteira, mas eu não sei nem explicar se é cultura, se não é. Eu sei que a gente faz com muito capricho”, diz Maria Luiza Santos Vieira.

Há exatamente 73 anos, dona Maria Luísa pediu um punhado de argila para o pai e, de repente, viu de suas mãos sair um pequeno ganso. Ela tinha seis anos.

“Ficou tão bonitinho”, diz, olhando para trás no tempo. “Aí fiz uma vaquinha, depois um presépio todinho.” De lá pra cá, não parou mais.

O descobridor das figureiras foi o professor Rossini Tavares de Lima, de São Paulo.

Na década de 1940, perambulando por uma feira da cidade, conheceu a mãe de Maria Luíza e encantou-se com o que viu. “Eu tenho a fotografia do professor e tudo. Foi uma pena ele falecer”, diz a artesã.

Pelas mãos de Rossini, o trabalho feito pela sua família integrou uma exposição no Museu do Folclore, em São Paulo, durante as comemorações pelo IV Centenário. “Só não pude ir à festa porque eu tinha completado 14 anos e já estava trabalhando na fábrica de juta.”

Maria Luiza e a irmã Cândida, de 73 anos, moram numa casa de janelas e portas pequenas, como aquelas dos desenhos infantis.

A residência, na rua Imacolada, na saída da rodovia Presidente Dutra, é forrada de imagens de pavões, galinhas, flores e, claro, presépios.

As duas senhoras, tímidas num primeiro momento, mas depois faladeiras, simbolizam – ao lado de dezenas de outros artesãos – um saber que nasceu no convento da cidade.

No século XVIII, os franciscanos, para poder fazer seus presépios, ensinaram alguns moradores a modelar animais.

Os anos passaram e o saber foi sendo transmitido entre as famílias. Há muito de repetição entre os objetos hoje oferecidos pelos artesãos. Mas há também a beleza de um fazer meticuloso e, de repente, uma peça de especial brilho.

Na rua detrás à casa das irmãs, fica a Casa do Figureiro, onde estão reunidos os trabalhos de diversos autores e onde funciona um ateliê voltado a moradores da cidade.

Saem dali, inclusive, muitas das peças dos presépios que vemos nas grandes cidades. Os pedidos para o Natal deste ano já começaram.

A julgar por dona Maria Luiza, o trabalho miúdo, de feições ingênuas, ainda faz muito sucesso. “Tem encomenda até agosto. Tá tudo ali anotado no caderno. Dá pra ganhar uns trocados, sim”, garante.

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21 de maio de 2009

Disney relança Branca de Neve para enfrentar a crise no mercado de DVD

Tags:, , , , , - ana paula sousa às 8:00

A Walt Disney anunciou ontem, em Los Angeles, o lançamento de uma nova edição de Branca de Neve e os Sete Anões, clássico de 1937 que deu início à era de ouro do estúdio de animação.

Num momento em que o mercado de dvd’s começa a dar sinais de cansaço, a empresa recua no tempo para oferecer ao consumidor uma nova “experiência” em entretenimento doméstico.

O anúncio vem comprovar a necessidade de reinvenção de um mercado que, com downloads e pirataria (sobretudo em países como Brasil e Coréia), viu-se obrigado a buscar saídas.

O DVD, que na última década garantiu bons cifrões à indústria, deixou de ser um pote milionário.

Para substituí-lo, a indústria inventou o Blu-ray, nova tecnologia capaz de oferecer melhor definição da imagem e novas formas de interatividade.

Leia também:

A era das video-locadoras está chegando ao fim?
Empresas de vídeo reagem a entrevista de Daniel sobre pirataria

Cabe lembrar que, para aproveitar todos os recursos do Blu-ray - por ora blindado contra a pirataria -, é preciso não apenas adquirir um aparelho para reprodução, mas também ter uma tevê de alta definição.

A pergunta ainda não respondida é: o consumidor estará disposto a, de novo, trocar tudo em nome da infindável melhoria na definição de imagens?

No texto de divulgação de Branca Neve, que integrará uma coleção chamada Diamante, a empresa, em tom festivo, afirma:

- Na mesma medida em que os filmes revolucionaram a indústria do cinema em 1937, a nova e revolucionária Coleção Diamante veio para transformar o mercado de home entertainment,

Como me disse há alguns meses Wilson Cabral, diretor da Sony Home Entertainment no Brasil, “a partir do momento em que você vem com um formato novo, você mostra que não está morto”.

Branca de Neve, que chegará às lojas brasileiras no dia 7 de outubro, em Blu-ray e DVD, trará jogos, uma visita virtual ao estúdio Hyperion, construído por Disney, e novidades no modelo de interação.

O apelo de Branca de Neve, um filme em tudo pioneiro (do merchandising ao uso da trilha sonora), é indiscutível. O apelo do Blu-ray, nem tanto.

No Brasil, o formato ainda engatinha. Em 2008, para se ter uma ideia, foram lançados 225 títulos em Blu-ray ante 1,8 mil em DVD. Já nos Estados Unidos, a venda de aparelhos disparou este ano.

ADENDOS

- A assessoria de imprensa da Disney no Brasil, após ler este texto, enviou um e-mail reforçando que o lançamento não tem nada a ver com a crise. “Relançamos nossos clássicos de sete em sete anos.”

- Pelo que sei, Fantasia, aqui citado por vários leitores, será futuramente lançado pela Coleção Diamante

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20 de maio de 2009

Belmiro Braga: a rua mais cultural de São Paulo

O Centro Cultural Rio Verde quer criar, recriar e propagar

A rua Belmiro Braga, na Vila Madalena, região oeste da cidade de São Paulo, é estreita e recolhida. Quase não se deixa ver.

De um lado, fica a movimentada Cardeal Arcoverde. Do outro, a Luís Murat, conhecida como a rua do cemitério. A ligar as duas, a discreta Belmiro.

Discrição apenas geográfica, diga-se. A rua, seja pelo som de tambores, guitarras ou vozes, seja pelo vaivém de artistas e curiosos, parece cada dia mais cheia de si.

Cheguei à Belmiro Braga para conhecer o Centro Cultural Rio Verde, um abrigo de plantas e de arte onde tudo soa a liberdade e criação. O espaço, aberto há dois anos por Kiki Vassimon e Guga Stroeter, quer criar, recriar e propagar.

No domingo em que lá estive, o dramaturgo Mário Bortolotto apresentou-se com a banda Saco de Ratos (ouça aqui) e a atriz Fernanda D’Umbra se arriscou como cantora ao som de um blues que pedia copos de uísque.

Do palco, seguiram todos para o estúdio, localizado ali mesmo. “Gravamos todo mundo que se apresenta. Já temos um arquivo de mais de 300 horas”, diz Kiki, misto de empreendedora e sonhadora acelerada.

O Centro Cultural Rio Verde desconhece seleção por estilos ou tribos. “Isto aqui é um espaço para a experimentação. Aqui, os artistas são artistas, e não produto”, defende. “É um modelo em criação.”

No próximo dia 30, uma festa que começará às 2 da tarde e se arrastará noite adentro, marcará o lançamento da rádio web, onde toda essa música poderá ser ouvida.

Diversos artistas vão se apresentar em forma de concerto. “Aqui tem cerveja, tem churrasco, mas a prioridade é a música. Os músicos têm que ser ouvidos”, diz Kiki

Nesse dia, como de resto sempre acontece, haverá de tudo: jazz, samba, chorinho, MPB e hip-hop. A mistura que se vê ali dentro é, não por acaso, um pouco da mistura existente do lado de fora.

Têm sede na Belmiro Braga a Associação Sambatá, dedicada a difundir a cultura africana, e a Kolombolo diá Piratininga, responsável pela preservação da história das tias baianas paulista (veja aqui o trailler do documentário sobre o grupo).

Na mesma rua, fica a sede paulistana da Eletrocooperativa, ponto de cultura nascido em Salvador. A entidade, de reconhecida importância, realiza um trabalho de inserção social por meio da música e da tecnologia.

“Desde que nos instalamos aqui, em janeiro de 2007, trocamos experiências, apoios e fazemos algumas produções em parceria”, diz Lígia Fernandes, que trabalha no Sambatá e faz parte do Kolombolo.

O samba do Kolombolo é vizinho do Projeto Aprendiz, de Dimenstein

O samba do Kolombolo é vizinho do Projeto Aprendiz, de Dimenstein

As parcerias a que Lígia se refere incluem não apenas as casas culturais, mas também outros dois vizinhos: o Projeto Aprendiz, de Gilberto Dimenstein, e o Projeto Guri, criado pelo governo do Estado de São Paulo e hoje mantido por uma Associação de Amigos.

Os dois projetos, de viés social e educacional, parecem fechar o círculo que as outras entidades, menores, desenham no chão da rua.

A congregá-los, o Centro Cultural Rio Verde, o primeiro espaço, digamos, comercial da Belmiro.

Será realizada nesse espaço, por exemplo, a festa Catraca Eletrônica, organizada por Dimenstein, no dia 31 de Maio.

Com tamanha reunião de sons e ações, é inevitável que surjam também alguns problemas. Os moradores já procuraram a subprefeitura de Pinheiros para reclamar do barulho.

“A gente tem adequado as coisas para incomodá-los o menos possível”, diz Kiki. “Mas também temos tentado, nas reuniões, fazer com que os moradores entendam que fazem parte de um movimento maravilhoso.”

Curiosamente, ninguém sabe explicar como cada um foi parar ali. Parece que foram todos apenas chegando. E ficando.

Dimenstein, ao abrir o Aprendiz, deu início à revitalização da rua. Mas, no caso do Centro Cultural, por exemplo, a escolha do imóvel deu-se, simplesmente, pelo preço do aluguel.

Haverá um ímã captador de cultura grudado ao asfalto da Belmiro Braga?

Colaborou Ariane Moretti

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19 de maio de 2009

Biliardários criam Orkut exclusivíssimo

Tags:, , - ana paula sousa às 12:36

Eu me cadastrei esta manhã. Um e-mail confirmou que o perfil está sob avaliação: minha entrada no clube virtual será confirmada ou negada em 72 horas.

Obviamente, será negada. Para ser aprovado no the-sphere.com é preciso ter um estilo de vida dourado.

Comunidade engendrada nos moldes do Orkut, sucesso nacional, e do Facebook, mais internacionalizado, o site é uma aula sobre alguns dos tiques contemporâneos.

Numa declaração ao jornal Le Monde, David Manoukian, criador do the-sphere, disse que, na criteriosa seleção, mais do que a conta bancária, o que se leva em consideração é o estilo de vida dos candidatos.

Lançado no início deste ano, o site aprovou apenas 400 dos 6 mil internautas que se cadastraram.

Preencher o longo formulário é como espiar, pela fechadura, o mundo de exclusividades que o dinheiro compra. É um divertido decifrar de códigos.

A primeira pergunta, sobre a atividade profissional, já indica o terreno onde estamos pisando.

Entre as opções, que vão de dono de empresa a CEO, a que mais me atraiu, confesso, foi: “dedicada aos meus hobbies”.

Também é preciso indicar, de cara, a que clube você pertence: Beach Club, Golf Club, Yatch Club… Cliquei em “outros”.

Mas a etapa mais difícil ainda estava por vir. São de preenchimento obrigatório campos sobre as suas preferências.

Achei que estava me saindo bem nas respostas sobre filme, artista e até restaurante – citei o elBulli, do chef espanhol Ferran Adrià que, aposto, eu adoraria.

A desenvoltura desapareceu, porém, em itens como carro, night club e hotel. Haja pesquisa no Google para descobrir boas respostas.

No fim, quando a pergunta era sobre os relógios que uso, me peguei impaciente: “Não uso relógio”. Mentira. Mas não deixaria de ser um estilo.

Para piorar, descobri, depois de algum trabalho, que, caso fosse aprovada, eu teria de pagar uma anuidade de 3 mil euros.

Infelizmente, não poderei registrar aqui quem faz parte do Orkut dos biliardários. Se, em 72 horas, alguém me deixar entrar, prometo contar quem está lá.

Entre os serviços oferecidos pelo site, está um localizador de milionários. Você poderá descobrir, por exemplo, onde Warren Buffet está jogando golf. Outra ideia é promover encontros amorosos entre contas bem nutridas.

Os milionários, como se vê, também trocam scraps. Entre si, claro.

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