Terra Magazine

3 de maio de 2009

Para Augusto Boal, éramos todos artistas

A morte de Augusto Boal virou notícia de destaque neste final de semana. Curiosamente, porém, o dramaturgo e diretor tinha sumido da imprensa brasileira nos últimos anos, como se nada andasse fazendo.

Não foi sem algum susto que li a notícia de sua morte.

Conversei com Boal há cerca de um mês, dias antes de sua partida para Paris, onde recebeu uma homenagem na Unesco. A despeito da doença, ele soava, ao telefone, cheio de vitalidade e planos.

Reproduzo, a seguir, a reportagem que foi publicada na revista CartaCapital. Esta foi a última entrevista concedida por ele.

ATIVISTA TEATRAL

Foi no auditório da Unesco, em Paris, que Augusto Boal celebrou, na sexta-feira 27 de março, o Dia Mundial do Teatro. Homenageado pela instituição, o diretor, dramaturgo e ensaísta brasileiro via o trabalho que realiza desde os anos 1960 ser mundialmente aplaudido.

O Teatro do Oprimido, o método que Boal desenvolve desde os anos 1960, é tão conhecido quanto impalpável. Muita gente já ouviu falar dele. Mas o que é, de fato, esse teatro que se propõe a ser, a um só tempo, arte, ação social e movimento político?

Boal, ex-integrante do Teatro de Arena e escritor incansável, diz, na entrevista a seguir, que se trata de uma ação capaz de transformar a sociedade e de fazer à estética dominante.

Em poucas palavras, como o senhor definiria o Teatro do Oprimido?

Defendemos que todos nós podemos fazer teatro, que todos podemos ser personagens, de fato, de nossas próprias vidas.

Por que temos de seguir a estética determinada pela classe dominante? O Teatro do Oprimido traz consigo a estética do oprimido. Ou seja, queremos que as pessoas retomem suas próprias palavras, imagens e sons.

Na prática, isso significa o que?

Significa compreender que, hoje, todas as formas de expressão e comunicação estão nas mãos dos opressores.

O que a televisão oferece é um crime estético. E ainda acham estranho que alguém saia matando 15 pessoas de uma só vez. O cérebro das pessoas está impregnado dessas imagens.

As rádios também repetem o mesmo som o tempo todo. Sem falar no tecno, que desregula até marca-passo, e é pior que ouvir gente quebrando tijolo em construção.

O que a gente quer, no Teatro do Oprimido, é lutar nesses três campos : palavra, imagem e som.

Nos dê um exemplo desse trabalho. Como ele é feito, que resultados proporciona?

O Teatro do Oprimido é seguido, por exemplo, pelo MST. Há uns 10 anos, eles fundaram um grupo e quase 30 camponeses vieram conhecer o nosso trabalho. Passamos pra eles tudo que podíamos.

Eles não vieram para consumir uma técnica, mas para receber instrumentos que pudessem usar em suas terras. Essa é também a ideia do Teatro do Oprimido ponto-a-ponto, que difunde o trabalho pelo Brasil. Temos multiplicadores do que fazemos aqui no Rio de Janeiro. Estamos em 16 Estados.

O que significa, para uma organização como o MST, ter grupos de teatro?

Significa ter o direito de tratar de certos assuntos a partir da visão deles, expor uma visão dos acontecimentos que não é aquela dos jornais, que coloca o MST como um bando de brutamontes.

O teatro permite que o pensamento que está por trás do movimento seja exposto, retrabalhado.

Em linhas gerais, qual a sua avaliação do teatro brasileiro hoje?

Existe um mundo de teatros no Brasil. Nunca vi um espetáculo no Amazonas ou no Pará, então não posso avaliar.

O que posso dizer é que a Lei Rouanet assassinou a criatividade do teatro.

Ao transferir do governo, que representa o povo, para as empresas a decisão de onde investir, a Lei substitui o pensamento criativo pelo publicitário. Essa lei tem que acabar.

Muitos produtores dizem exatamente o oposto: se acabar a lei, acaba o teatro.

Não é a verdade. Há muitos grupos produzindo por aí. Esse dinheiro da lei deveria ser transferido para um fundo.

A verba do fundo seria distribuída de acordo com a avaliação de comissões constituídas pela sociedade. A Lei não incentiva companhias como a minha, ou as de Zé Celso (Martinez Corrêa), Antunes Filho, Aderbal (Freire Filho) ou grupos como o Tapa.

Ela só funciona para projetos isolados, individualistas. Se eu depender do apoio de uma empresa de macarrão, como vou produzir uma peça como Ralé, de Gorki, que fala sobre a fome?

Qual a sua avaliação do Ministério da Cultura?

Desde que o Gilberto Gil assumiu, temos, pela primeira vez, um Ministério da Cultura. Antes, até houve pessoas interessantes na pasta, mas nunca um Ministério de fato.

Também acho que, pela primeira vez, deixou-se de pensar em cultura apenas como erudição, no sentido dos grandes clássicos literários, dos grandes pintores. O governo indicou que o Brasil deveria se apropriar do que já existia, daquilo que o povo faz.

A cultura não é apenas o que o povo consome, é também o que o povo produz. Os pontos de cultura são isso, eles apoiam o que já existia.

O Teatro do Oprimido também foi beneficiado, não?

Sim, e o Gil disse até que servimos de inspiração para os pontos de cultura. Mas também trabalhamos com outros Ministérios, como Educação e Saúde.

Fizemos um trabalho em escolas de cinco cidades, nas proximidades do Rio, e vimos o poder de transformação que o teatro exerceu sobre os alunos.

Nos dê um exemplo dessa transformação proporcionada pelo teatro.

No caso dos hospitais psiquiátricos, há uma diminuição absurda no consumo de medicamentos. Trabalhamos com a saúde e não com a doença mental.

Procuramos ativar a parte saudável do cérebro doente, estimulá-lo no que tem de vivo e criativo. Com isso, o teatro é capaz de devolver ao convívio social alguém que tinha se isolado. Nas comunidades carentes acontece o mesmo.

Os programas populares da televisão são um massacre, impedem que as pessoas percebam o que está dentro delas. Elas apenas consomem o que lhes é imposto. O Teatro do Oprimido procura ajudá-las a encontrar seus próprios meios de expressão.

Que episódios, nessas andanças, mostraram ao senhor o sentido do seu trabalho?

Vários. Me lembro de um presídio, no interior de São Paulo, que funcionava como um leprosário. A população da cidade queria o isolamento total daqueles presos.

Resolvemos fazer uma peça de teatro, com os presos, no meio de uma praça pública, e um morador era chamado para entrar em cena. Isso amenizou aquela relação conflituosa e violenta.

Também de lembro de um preso, que era engraçado, e, numa cena, fez uma menina de 10 anos rir. A menina foi elogiá-lo. Ele se vira pra mim e diz: “É a primeira vez na minha vida que alguém me diz que eu sirvo para a alguma coisa”.

O senhor receberá, na França, uma homenagem da Unesco. Aqui no Brasil o senhor se considera reconhecido?

Sou reconhecido no meu trabalho, mas pela mídia, não. A imprensa só se interessaria pelo nosso grupo se formássemos três bailarinos que fossem dançar no Bolshoi.

A mídia gosta de campeões. Campeão de Fórmula 1, filme campeão de bilheteria, qualquer coisa que chegue na frente, que represente a vitória. Mas o ser humano não é cavalo de corrida.

Nos anos 1950, o senhor fez parte do Teatro de Arena, que teve grande projeção e, ao seguir o caminho do Teatro do Oprimido, mudou o rumo da sua carreira. Foi consciente essa escolha?

Totalmente. A escolha individualista nunca esteve no meu horizonte.

Quando era pequeno e trabalhava na padaria do meu pai, eu via aqueles operários que passavam o dia com um pão com manteiga e uma média e pensava: “Isso não pode continuar assim”. Eu acredito na solidariedade.

Estou com 78 anos. Isso é muito tempo. Foi outro dia que nasci e não deu tempo de fazer nem metade do que eu queria.

Mas, mesmo com todas as dificuldades, o Teatro do Oprimido me realizou.

Cidadão não é aquele que vive em sociedade, cidadão é aquele que transforma. E acredito que o Teatro do Oprimido tenha deixado alguma coisa para o mundo.

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17 Comentários »

  1. Esse realmente é o cara! Que tenha muita luz.

    Comentário por Zenaide — 3 de maio de 2009 @ 14:23

  2. Fui aluno do mestre e entendo o Teatro do Oprimido como a ferramenta mais didática para aqueles que querem discutir seus problemas sociais, individuais ou de grupo…
    Boal é o Gênio da nova era e o mais importante diretor das últimas décadas…

    Comentário por R. lampi — 3 de maio de 2009 @ 15:27

  3. Todo ser humano, independente de ser oprimido ou opressor, é artista, criador de personagens, criador do inconsciente. Na verdade, esse é nosso único dom garantindo a liberdade, nos criarmos a nós mesmos. A barbárie, o sufoco e a loucura tomando conta do planeta deve-se unicamente ao fato de não pormos em prática, todos os dias e coletivamente, esse óbvio ululante que todo verdadeiro artista conhece, e Boal foi um.

    Comentário por Francisco — 3 de maio de 2009 @ 15:44

  4. O teatro brasileiro acaba de sofrer uma irreparável perda. Será que agora que ele morreu, seu grande trabalho será reconhecido e valorizado? É o que espero. Que o Teatro do Oprimido, sua grande obra, se difunda neste nosso lindo país através de seus multiplicadores e que ele descanse em paz.

    Comentário por Margarete Cruvinel — 3 de maio de 2009 @ 15:47

  5. Bo al,um cidadão do mundo.O exemplo a ser seguido por todos.Deixou a ousadia de ser solidario.

    Comentário por scheila — 3 de maio de 2009 @ 17:13

  6. Numa sociedade onde tudo e todos viram mercadoria e fantoches de manipulação, a vida e obra de Boal fizeram a diferança e inspiram aqueles que não se dobram. Hoje o que temos de armas? O pensamento. Somente o pensamento permite deslocar as posições do poder, no exercício do pensamento temos a possibilidade de alguma liberdade. Valeu Boal!

    Comentário por Helen — 3 de maio de 2009 @ 17:13

  7. Ficamos com o legado, felizmente mais um brasileiro que nos honrou.

    Comentário por geraldo — 3 de maio de 2009 @ 18:33

  8. DESCANSE EM PAZ. AMIGO.

    Comentário por ivone — 3 de maio de 2009 @ 18:34

  9. augusto boal foi um homem genial, e deixara um legado que se continuado e aprimorado seráde grande ajuda àqueles que realmente precisam. como o nome diz; “teatro dos oprimidos”. ñ tive o prazer de conhecê-lo, mas sempre acompanhei seu trabalho e sou grande admirador de seu pensamento.
    minha solidariedade e meus sentimentos aos familiares e amigos próximos.

    Comentário por jamil faoas — 3 de maio de 2009 @ 20:03

  10. Trabalhar é o único lema e tema de todo grande artista: “Estou com 78 anos. Isso é muito tempo. Foi outro dia que nasci e não deu tempo de fazer nem metade do que eu queria.”
    Cézanne disse: “Eu jurei de morrer pintando”. Um grande artista nunca está satisfeito. E não está satisfeito por querer agradar este ou aquele ou, ainda, a mídia, mas consigo. Não é de causar espécie–pelo menos a mim– que um dramaturgo que se notabiliza por promover a liberdade de pensamento e de construir um Teatro que se chama do Oprimido só venha a se tornar “notícia” depois de morto.
    Mas esse esquecimento midiático não é somente em relação a Boal. Aliás, todos aqueles que tentaram em suas ações e obras revelar as inúmeras caras do Brasil, como, por exemplo, Euclides da Cunha, que é tido como o fundador da cultura brasileira, são jogados no limbo da história.
    Boal vive e sempre viverá, porque um grande artista se eterniza em sua obra.

    Comentário por Lucia — 4 de maio de 2009 @ 1:57

  11. Disculpa. ce n’était pas au théatre de la ville que Monsieur Augusto Boal était venu discourir mais à l’auditorium de l’UNESCO. Muito obrigada.

    Comentário por Maria — 4 de maio de 2009 @ 10:19

  12. obrigada pela correção, maria.
    um abraço

    Comentário por ana paula sousa — 4 de maio de 2009 @ 10:48

  13. Eu não o conhecia até começar a mevxer com teatro de rua aqui no Japão.
    No dia 24 de maio de 2009 starei apresentando num festival de teatro de rua aqui no Japão uma peça que fala dos problemas sociais como desemprego em massa dos estrangeiros, o nacionalismo japonês.
    Fica aqui minha homenagem ao maior dramaturgo de todos os tempos.
    Muito obrigado.

    Comentário por emilio tamura — 5 de maio de 2009 @ 23:14

  14. Oi, Emilio, que interessante saber que também por aí há influências do Boal.

    Abraço

    Comentário por ana paula sousa — 6 de maio de 2009 @ 1:36

  15. Augusto Boal mais do que ninguém enxergou e entendeu a alegoria da caverna de Platão, viu além após ter bebido do cálice de Dioniso. Marxista, quem sabe, só pra utilizar o termo freqüente “alienação”, o mundo alienado, o povo escravo que não reconhece nem mesmo as suas próprias correntes. Boal era capaz de ensinar a enxergar as correntes, era sim, e isto esteve claro em sua obra que não morreu, continua aqui, continua agindo embora as vezes de forma invisível, mas está agindo, isto é o mais importante. Agradeço a ti Boal, foi com seus livros que comecei minha luta aqui em Mato Grosso, que me descobri ator, artista, diretor. Aqui continuaremos nosso trabalho, fazendo teatro sim, esse teatro capaz de revelar, desmistificar, esclarecer, filosofar e também libertar. Você nos deu ferramentas, muitas, e é com elas que mudamos nossas vidas e a vida daqueles a nossa volta. Muito obrigado Augusto Boal, o céu é teu, você lutou pelo seu povo e acreditou que sempre é possível mudar. Que Deus o tenha e que nós envie outros mestres como você. Jamais o conheci pessoalmente, mas se o tivesse visto algum dia teria dito: obrigado, simplesmente, obrigado.

    Comentário por Jaques Zanco — 12 de maio de 2009 @ 23:16

  16. Um detalhe “Para Boal SOMOS todos Artistas”.
    Seu corpo nos deixou, mas o espírito de sua obra não.
    É Presente o que ensinou e continuará sendo ainda por muitas gerações…
    …o que fez foi nos revelar, ou lembrar do Óbvio: Criar é Humano, e o ato criador é Humanizador.

    Falo como representante e multiplicador do Teatro do Oprimido em Belo Horizonte, trans-Formado pelos Curingas do CTO e, por ele próprio, a quem conheci e tive a honra de homenagear com uma música: CANTO AUGUSTO. Fizemos uma serenata pra ele em seu último aniversário: vejam no Youtube: “Serenata para Boal” (www.youtube.com/watch?v=6xcyoPYk7fE ) .

    Boal Vive, em todo aquele que reassume seu direito e
    Dever de Beleza …

    Nuno Arcanjo
    (artista-multiplicador do Teatro do Oprimido)

    Comentário por Nuno Arcanjo — 13 de maio de 2009 @ 18:10

  17. Viveu e deixou uma semente de liberdade.
    fez muito pelo ser humano.
    que descanse em paz e cercado de luz.

    Comentário por Claudio Pereira — 6 de julho de 2009 @ 16:30

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