Terra Magazine

20 de maio de 2009

Belmiro Braga: a rua mais cultural de São Paulo

O Centro Cultural Rio Verde quer criar, recriar e propagar

A rua Belmiro Braga, na Vila Madalena, região oeste da cidade de São Paulo, é estreita e recolhida. Quase não se deixa ver.

De um lado, fica a movimentada Cardeal Arcoverde. Do outro, a Luís Murat, conhecida como a rua do cemitério. A ligar as duas, a discreta Belmiro.

Discrição apenas geográfica, diga-se. A rua, seja pelo som de tambores, guitarras ou vozes, seja pelo vaivém de artistas e curiosos, parece cada dia mais cheia de si.

Cheguei à Belmiro Braga para conhecer o Centro Cultural Rio Verde, um abrigo de plantas e de arte onde tudo soa a liberdade e criação. O espaço, aberto há dois anos por Kiki Vassimon e Guga Stroeter, quer criar, recriar e propagar.

No domingo em que lá estive, o dramaturgo Mário Bortolotto apresentou-se com a banda Saco de Ratos (ouça aqui) e a atriz Fernanda D’Umbra se arriscou como cantora ao som de um blues que pedia copos de uísque.

Do palco, seguiram todos para o estúdio, localizado ali mesmo. “Gravamos todo mundo que se apresenta. Já temos um arquivo de mais de 300 horas”, diz Kiki, misto de empreendedora e sonhadora acelerada.

O Centro Cultural Rio Verde desconhece seleção por estilos ou tribos. “Isto aqui é um espaço para a experimentação. Aqui, os artistas são artistas, e não produto”, defende. “É um modelo em criação.”

No próximo dia 30, uma festa que começará às 2 da tarde e se arrastará noite adentro, marcará o lançamento da rádio web, onde toda essa música poderá ser ouvida.

Diversos artistas vão se apresentar em forma de concerto. “Aqui tem cerveja, tem churrasco, mas a prioridade é a música. Os músicos têm que ser ouvidos”, diz Kiki

Nesse dia, como de resto sempre acontece, haverá de tudo: jazz, samba, chorinho, MPB e hip-hop. A mistura que se vê ali dentro é, não por acaso, um pouco da mistura existente do lado de fora.

Têm sede na Belmiro Braga a Associação Sambatá, dedicada a difundir a cultura africana, e a Kolombolo diá Piratininga, responsável pela preservação da história das tias baianas paulista (veja aqui o trailler do documentário sobre o grupo).

Na mesma rua, fica a sede paulistana da Eletrocooperativa, ponto de cultura nascido em Salvador. A entidade, de reconhecida importância, realiza um trabalho de inserção social por meio da música e da tecnologia.

“Desde que nos instalamos aqui, em janeiro de 2007, trocamos experiências, apoios e fazemos algumas produções em parceria”, diz Lígia Fernandes, que trabalha no Sambatá e faz parte do Kolombolo.

O samba do Kolombolo é vizinho do Projeto Aprendiz, de Dimenstein

O samba do Kolombolo é vizinho do Projeto Aprendiz, de Dimenstein

As parcerias a que Lígia se refere incluem não apenas as casas culturais, mas também outros dois vizinhos: o Projeto Aprendiz, de Gilberto Dimenstein, e o Projeto Guri, criado pelo governo do Estado de São Paulo e hoje mantido por uma Associação de Amigos.

Os dois projetos, de viés social e educacional, parecem fechar o círculo que as outras entidades, menores, desenham no chão da rua.

A congregá-los, o Centro Cultural Rio Verde, o primeiro espaço, digamos, comercial da Belmiro.

Será realizada nesse espaço, por exemplo, a festa Catraca Eletrônica, organizada por Dimenstein, no dia 31 de Maio.

Com tamanha reunião de sons e ações, é inevitável que surjam também alguns problemas. Os moradores já procuraram a subprefeitura de Pinheiros para reclamar do barulho.

“A gente tem adequado as coisas para incomodá-los o menos possível”, diz Kiki. “Mas também temos tentado, nas reuniões, fazer com que os moradores entendam que fazem parte de um movimento maravilhoso.”

Curiosamente, ninguém sabe explicar como cada um foi parar ali. Parece que foram todos apenas chegando. E ficando.

Dimenstein, ao abrir o Aprendiz, deu início à revitalização da rua. Mas, no caso do Centro Cultural, por exemplo, a escolha do imóvel deu-se, simplesmente, pelo preço do aluguel.

Haverá um ímã captador de cultura grudado ao asfalto da Belmiro Braga?

Colaborou Ariane Moretti

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7 Comentários »

  1. Com licença amigos. Quem de voces limpam as mesas dos Shoppings após terminarem as refeições? Reparem só, as pessoas comem seus “fast foods” e correm levar as bandejas sujas até as lixeiras, e ficam se achando as pessoas mais educadas do mundo! Alguem ja foi a um restaurante e teve que limpar a mesa ao terminar a refeição? Vamos parar com isso! Parem de ser egoístas e quererem o emprego das faxineiras! O shopping tem q ue contratar mais faxineiras, sejam “educados” no trânsito, no trabalho…

    Comentário por claudio — 20 de maio de 2009 @ 10:49

  2. no shopping nao estamos na cozinha de casa e nao sao todos que tem empregada em casa,é um lugar coletivo,sendo assim nao nos custa nada levarmos a bandeja ate o lixo,e deixar a mesa ao menos sem nossos restos para que a proxima pessoa que for utilizar a mesa possa ao menos se sentar,pois as meninas que fazem a limpeza sempre as deixam limpas.educaçao eo senso de coletivo vem de casa

    Comentário por CARLOS — 20 de maio de 2009 @ 11:13

  3. Oh céus, q dúvida!!! Devo limpar a mesa ao sair da dita cuja para manter meus princípios de pessoa educada ou deixo meus restos para q as faxineiras tenham seus empregos garantidos?

    Comentário por Educadinha — 20 de maio de 2009 @ 13:02

  4. Muito legais os projetos que acontecem na Belmiro , eu não conhecia e vou com certeza dar um pulo até lá ver de perto.
    Abraço
    DG
    http://www.refilaria.blogspot.com

    Comentário por DG — 20 de maio de 2009 @ 15:07

  5. Acho que o senso de coletividade tem que existir,pois imagina se todo mundo deixasse as bandejas nas mesas(pois não custa levar) as faxineiras não teriam tempo para retirar todas de uma vez ai o engraçadinho ai em cima iria reclamar que as mesas vivem sujas se toca meu querido vc vive em uma ciadade com de 1 milhão de moradores ajudar ao próximo não custa nada !

    Comentário por nayme — 20 de maio de 2009 @ 15:28

  6. Caros,

    Creio que a discussão sobre as “bandejas” diz respeito a alguma outra matéria, não? :-)

    Abraços

    Comentário por ana paula sousa — 20 de maio de 2009 @ 15:36

  7. A rua é, de fato, encantadora. Ou apenas terá sido, no passado? Ao que parece, o semi-deus do teatro marginal paulista (a que ponto chegamos?), o pseudo-Bukowski Mário Bortolotto não se dá por contente com a adoração dos mesmos ratos que puxam seu saco lá na Praça Looservelt (onde, com algum esforço, encontra-se “posers” mais interessantes para conversar). Mas agora parece que seu pseudo-blues ganhou adeptos neste bairrinho colporido, porém asséptico que tem se tornado a Vila Madalena. Com tanta cultura ao alcance, parece-me que o paulistano gosta mesmo é de engolir farsas, em todos os lugares…

    Comentário por Renata Figueiredo — 21 de maio de 2009 @ 2:10

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