Terra Magazine

29 de junho de 2009

Estou de saída

Tags:, , , , - ana paula sousa às 8:00

Caros leitores,

Estou deixando o Babel.

Dentro de uma semana, darei início a uma nova etapa profissional, no caderno Ilustrada, da Folha de S. Paulo.

Gostaria de dizer que, graças à participação de cada um de vocês, esta passagem pelo Terra foi incrível.

Pela primeira vez, em 15 anos de profissão, tive a sensação de ter conhecido um pouco os meus leitores.

Vivi também a experiência do contraditório, do elogio, do ataque e, sobretudo, a experiência da liberdade.

Eu vou, mas o Babel deve continuar. Reapareçam por aqui porque, em breve, outra pessoa pegará o bastão.

Abraço,
Ana Paula

Blogs que citam este Post

26 de junho de 2009

É possível uma livraria viver só da venda de livros?

Na era das compras pela internet, dos downloads e das livrarias transformadas em lugar de venda de CDs e DVDs, um espaço chama a atenção em São Paulo.

Na avenida Paulista, quase esquina com a Brigadeiro Luiz Antonio, sobrevive uma livraria que, na contramão da concorrência, continua a vender apenas livros.

Nascida em 1960, em Santos, e depois transformada também em editora, a Martins Fontes atravessou os anos como uma livraria modesta. O principal negócio da família era a edição.

Em meados dos anos 2000, no entanto, Alexandre Martins Fontes, filho do fundador, Waldir Martins Fontes, decidiu inverter a lógica do negócio e investir nas lojas da avenida Paulista e da rua Dr. Vila Nova, na Vila Buarque.

Na entrevista a seguir, Alexandre fala sobre o negócio dos livros no Brasil.

É possível uma livraria, hoje, viver só de livros? Mesmo livrarias tradicionais de São Paulo, como a Cultura e a Livraria da Vila, aderiram aos DVDs ou CDs.

É possível. Somos a prova viva disso.

Em 2005, decidi investir pra valer na livraria. E eu não queria vender CDs ou objetos de papelaria. Queria atrair o público que verdadeiramente consome livros.

E, para você ter uma ideia, estamos, em 2009, vendendo oito vezes mais do que no final de 2004.

Acho que hoje, esta livraria cumpre o seu papel de fazer o melhor trabalho possível.

O que é uma boa livraria?

É uma somatória de coisas, claro. Mas, quanto maior o acervo, maiores as chances de ser um acervo rico.

Temos aqui 100 mil livros. Entre eles, há 90 mil títulos. Se eu colocasse dois exemplares de cada, eu teria apenas 50 mil títulos.

Isso, para mim, é uma boa livraria. É claro que, no caso dos lançamentos maiores, eu não tenho um só exemplar.

A La Selva, por exemplo, trabalha com cerca de 3 mil títulos. A Fnac, com 30 mil.

Mas a tendência das livrarias é justamente a inversa, não? Ou seja, trabalhar com um número menor de títulos.

Sim. O que é mais trabalhoso? Escolher um número maior de livros, repor o estoque a cada venda ou oferecer o que tende a ser vendido com mais rapidez?

Me parece que vocês são um exemplo da teoria da “Cauda Longa” (do norte-americano Chris Andersen), que defende que a indústria cultural sobreviverá por meio de nichos.

Nosso projeto tem tudo a ver com isso. Metade de nossas vendas é de um exemplar.

No mundo do livro, a lógica da cauda longa é ainda mais verdadeira que no mundo da música. A quantidade de livros publicados é enorme. Quanto mais opções dermos ao cliente, melhor.

As mega-stores, ironicamente, acabaram reduzindo as opções?

As mega têm origem numa teoria criada nos anos 1990, nos Estados Unidos, quando se dizer que seria importante que as pessoas, por terem cada vez menos tempo, fossem a um lugar em que encontrassem todas as opções de entretenimento cultural.

O problema é que essa lógica se estendeu para espaços não tão grandes assim. E aí, simplesmente, você não tem como expor tudo.

Sabe-se que o Brasil é um país que pouco lê. Ao mesmo tempo, o mercado de livros parece crescer. Como se explica isso?

Uma coisa não exclui a outra. Apesar de pouca gente ler, a população é muito grande e essa pequena fatia que lê justifica a publicação.

Além disso, quando um livro estoura, são milhões de exemplares vendidos.

Mas os livros são caros porque pouco se lê, não?

Sim, porque as tiragens são baixas, de 2 mil ou 3 mil exemplares.

Ainda assim, é inegável o amadurecimento do mercado de livros no Brasil.

Estamos, hoje, entre os principais mercados do mundo para a venda de direitos autorais. Publica-se muito.

Aqui na avenida Paulista, há 10 anos, você tinha apenas a Livraria Cultura. Hoje, temos a Cultura, que cresceu, a Martins Fontes, a Fnac, a Saraiva do Shopping Paulista… Significa alguma coisa, não?

Blogs que citam este Post

25 de junho de 2009

Filmes de terror desembarcam em São Paulo

Tags:, , , , , , , , , - ana paula sousa às 9:21

Cidade de vocação cinéfila, São Paulo ganhou mais um festival temático: o SP Terror – Festival Internacional de Cinema Fantástico, que começa hoje, no Reserva Cultural, na avenida Paulista.

A despeito da legião de fãs, o terror, pela própria especificidade, custa a cavar espaço no circuito tradicional.

Por isso mesmo, têm ar de novidade os 25 títulos selecionados pelo festival que, para firmar-se como vitrine do gênero, terá duas mostras competitivas, a internacional e a iberoamericana. José Mojica Marins, claro, integra o júri.

Entre as produções inéditas, os curadores chamam a atenção para a ficção científica francesa Eden Log, de Frank Vestilel, o britânico Os Matadores de Vampiras Lésbicas, de Phil Claydon, de título auto-explicativo, e o japonês Yoroi Samurai Zombie, de Tak Sakaguchi.

Entre os brasileiros, há Mangue Negro, filme de zumbis premiado em festivais voltados a esse gênero onde o trash é cult.

Para falar sobre o SP Terror, entrevistei Rodrigo Aragão, diretor de Mangue Negro.

A seu ver, um festival como o SP Terror contribui para difundir o gênero ou acaba por deixá-lo ainda mais no gueto?

Festivais como o SP terror, Curta Fantástico e o Fantaspoa são um sonho realizado para todos os fãs de terror no Brasil

Sempre fomos órfãos deste tipo de evento, torço para que todos cresçam cada vez mais.

Você, quando fez Mangue Negro, pensava em tentar colocar o filme no circuito tradicional ou o destino de um filme de terror é quase sempre o circuito de festivais?

Olha, fiz o Mangue por paixão. Costumo dizer que fiz o filme para mim. Como fã de terror, coloquei as cenas que sempre sonhei ver em um filme nacional.

O Mangue Negro vai para as locadoras da Alemanha e Holanda, mas, infelizmente, ainda não conseguimos distribuição no Brasil.

Torço para que o máximo possível de espectadores possam vê-lo, dentro e fora de festivais.

Seu filme ganhou prêmios em vários festivais. Como é, em geral, a produção do gênero? A temática e a estética se repetem muito?

Existem filmes pasteurizados, sempre com fórmulas muito parecidas, como também acontece com grande parte da produção americana.

Ao mesmo tempo, muitas coisas maravilhosamente originais estão sendo produzidas mundo afora.

Acho que o sucesso do Mangue se deve, em grande parte, ao fato dele ser extremamente regional. Isso faz com que o filme seja original.

Quais seriam os temas universais do terror?

O terror está cravado na alma humana: no medo do escuro e do desconhecido, medo de ser devorado, medo dos deuses ou dos demônios.

Acho que um filme de terror mexe com este porão da mente humana.

O que um espectador busca quando vê um filme de terror?

No meu caso, diversão. Acho esses filmes extremamente divertidos. É como andar em uma montanha russa. Você grita, se assusta e, no final, tudo fica bem.

O que, para você, define um bom filme de terror? Quando ele deixa de ser um filme de gênero e vira cinema – no sentido mais amplo, do público, da linguagem?

Acho que quando se produz um filme de terror pensando em agradar à maior fatia possível, surgem produções fracas e sem tempero, que acabam não agradando ninguém.

Há vários casos assim em produções americanas recentes.

Você vê muito terror? O que há de melhor nessa produção?

Sou cinéfilo, assisto muitos filmes de todos os gêneros.

No terror, gosto muito dos splaitters dos anos 80, como Hora do Espanto, Lobisomem Americano em Londres, e dos italianos dos anos 70, como Zombie, de Lucio Fulci.

O que você diria a quem não tem afinidade com o gênero, mas ficou curioso com o Festival?

Acho que será um programa divertidíssimo. Uma oportunidade única de ver filmes que dificilmente encontraremos nas locadoras.

Blogs que citam este Post

23 de junho de 2009

Na Europa, a Internet decide o resultado das eleições

Nos últimos dias, a imprensa do mundo todo tem discutido à farta o impacto da Internet sobre o regime que, há 30 anos, vigora no Irã.

Mesmo sob os veus das burcas, o Twitter revela detalhes das manifestações contra o presidente Ahmadinejad que, no mundo real, permaneceriam ocultos.

Mas, se nos regimes duros, a internet serve para tornar público o que os governos proíbem, nos países democráticos, cada vez mais, a internet define os resultados das eleições.

Uma pesquisa realizada pelo Institut français d’opinion publique (IFOP), divulgada esta semana, mostra que a Internet foi a mídia mais utilizada pelos franceses nas últimas eleições do Parlamento Europeu.

Convidados a precisar a utilização de cada uma das mídias no processo de escolha dos candidatos, os entrevistados listaram a Internet como o meio que mais os ajudou.

A reportagem publicada pelo jornal Le Monde revela:

- Para 56% dos eleitores, a Internet foi “muito útil”

Aparecem, em seguida , a tevê, como 50 %, o rádio, com 47 % e a imprensa escrita, com 44 %.

Blogs que citam este Post

22 de junho de 2009

A obra do diretor que inspirou Os 12 Macacos é, enfim, exibida no Brasil

No Brasil, a principal referência que temos do outsider Chris Marker vem, curiosamente, da própria indústria cultural: o filme Os 12 Macacos, de 1995.

O cultuado trabalho dirigido por Terry Gilliam, com Bruce Willis e Brad Pitt no elenco, foi inspirado no curta-metragem La Jetée, feito por Marker em 1962.

Mas o verdadeiro sentido da obra do artista francês, que está com 88 anos e foi pioneiro na incorporação da tecnologia à imagem, nunca pôde ser, de fato, apreendido por aqui.

Finalmente, a obra desse homem que não se deixa fotografar e faz filmes que não cabem na definição tradicional de cinema, desembarcou no país.

A mostra Chris Marker, bricoleur multimídia, que passou pelo Rio de Janeiro, está em cartaz em Brasília e desembarca em São Paulo na próxima sexta-feira, reúne 33 títulos.

“Fotografia e cinema são sua matriz, mas sua arte é híbrida, pois trabalha com fotografia, cinema, vídeo, instalações interativas, poesia, literatura e música”, descreve a professora Maria Dora Mourão, da Escola de Comunicações e Artes da USP, no bem cuidado catálogo-livro que acompanha a mostra.

O autor borra ainda os limites entre ficção e documentário, imagens em movimento e fotografia, memória e “real”. O mistério, é bom que se diga, estende-se à sua personalidade.

Aos organizadores da mostra brasileira, Francisco Cesar Filho e Rafael Sampaio, advertiu:

- Espero que não tenham que elaborar a minha biografia, mas, de qualquer forma, não acreditem em nenhuma palavra do que foi impresso no Cahiers du Cinèma ou nenhum outro lugar. Parece que tenho o dom de gerar fantasias.

Blogs que citam este Post

19 de junho de 2009

Fernanda Montenegro encerra peça com elogio ao ministro da Cultura

Quando as luzes se apagaram e Simone de Beauvoir dissipou-se, surgiu Fernanda Montenegro – emocionada, enfática.

Ao fim da apresentação do monólogo Viver Sem Tempos Mortos (com ingressos esgotados desde antes da estreia), na noite de ontem, em São Paulo, a atriz quis falar ao público.

Agradeceu, primeiro, a cumplicidade da plateia, silenciosa e imersa naquelas palavras essenciais que Fernanda, magicamente, nos entrega durante 60 minutos.

Mas a atriz estava política. E quis fazer um agradecimento ao ministro da Cultura, Juca Ferreira, que estava no teatro SESC Anchieta.

- Se o senhor não fosse quem é, se não tivesse nos recebido, nos ouvido, este espetáculo não teria acontecido. Graças à sua assinatura, estamos todos aqui.

Claramente disposta a elogiar a pasta que, não raro, é acusada de perseguir os chamados artistas “consagrados”, a atriz fez questão de enfatizar a disposição de Ferreira ao diálogo.

- O ministro tem embates com os artistas, mas tem uma característica pouco comum entre os ministros: ele é achável. Os ministros, em geral, não são acháveis. E ele é. Inclusive, dentro de um teatro.

O breve discurso de Fernanda acontece num momento de ânimos acirrados no meio cultural.

Em meio à proposta de mudança na Lei Rouanet, responsável por boa parte dos recursos disponíveis para o setor, o ministério encontra-se no centro de debates intensos.

Na semana passada, por exemplo, a Folha de S. Paulo trouxe à tona o caso de Caetano Veloso, que teve um projeto negado pela comissão encarregada das aprovações.

Ferreira declarou, no próprio jornal, que era contra a negativa e que Caetano deveria, sim, ter acesso aos recursos.

Entre o fim da peça e a saída de Fernanda do camarim – eles iriam jantar depois do espetáculo –, entrevistei rapidamente o ministro.

A que episódio a Fernanda se referiu?

Acho que ela se refere ao fato de que eu talvez seja a pessoa que atende telefone com mais facilidade no ministério. Sinto que o diálogo, a acessibilidade, é parte do meu trabalho.

Mas teria havido algum problema para a aprovação do projeto dela?

Sempre tem algum problema. O tempo dos artistas às vezes não corresponde ao tempo burocrático. Tem toda uma lógica da produção que nem sempre coincide com os processos internos.

E eu, na falta de uma ouvidoria, faço um pouco esse papel, tenho um certo contato com os artistas.

É mais ou menos o que aconteceu com o Caetano Veloso?

No caso do Caetano é diferente. Houve uma negativa da comissão, a produção dele entrou com um recurso e eu percebi que havia erros na avaliação.

Nenhum sistema de julgamento pode aplicar para um o que não aplica para outro. A lei não trata da questão de bem-sucedido ou mal-sucedido, se ganha dinheiro ou não.

Por que aplicar em Caetano uma regra que não existe? Então eu resolvi intervir, como já tinha feito com a Maria Bethânia.

Nesse caso, fiquei com a impressão de que essa confusão foi proposital, como parte dos movimentos em torno das mudanças da Lei Rouanet.

É que esse caso indicaria que ficará cada vez mais difícil aos ditos “consagrados” conseguir verbas.

Democratizar é incluir todo mundo, criar possibilidade real de acesso. Você não pode excluir os grandes artistas de um sistema cultural democrático.

Se você exclui os grandes artistas, você faz uma opção equivocada.

Mas criou-se a ideia de que a nova Lei dificultaria o acesso dos grandes artistas ao mecanismo, não?

A cultura democrática, no Brasil, não é muito exuberante. Algumas pessoas temem de fato que isso aconteça, mas, em outros casos, o que aconteceu foi uma industrialização do medo para que a gente não tivesse um bom diálogo com os artistas.

Do mesmo jeito que havia uma busca de intrigar o ministério com os grandes artistas, agora há o inverso. Há uma decepção pelo fato da gente não persegui-los.

Na cultura, teremos que lidar sempre com a complexidade, não com a simplificação. O que se diz é que os grandes artistas não precisam desses recursos. Talvez eles não precisem. Mas nós precisamos deles.

Caetano reduziu à metade os valores dos ingressos. O mesmo aconteceu com a Fernanda. Você não acha que cabe ao ministério contribuir para que um maior número de pessoas veja um monólogo como este?

Não é uma tarefa cultural promover o acesso a este espetáculo?

Blogs que citam este Post

18 de junho de 2009

Infamous: quando um game vira fenômeno de crítica

Tags:, , , , , , - ana paula sousa às 11:54

“Muitos games tentam fazer com que você se sinta um super-heroi. Infamous é um dos poucos que, realmente, te entregam isso.”

A entusiasmada crítica ao novo jogo da Sony para o Play Station 3, publicada ontem no New York Times, é indicativa da sofisticação que os games têm atingido.

E do espaço que passaram a ocupar no tabuleiro do entretenimento.

Muitos dos grandes jornais do mundo têm dado, aos games, prestígio semelhante ao que têm o cinema ou a música. Não é à toa.

Em 2003, pela primeira vez, o mercado mundial de games ultrapassou a indústria cinematográfica, movimentando 10,5 bilhões de dólares ante 9 bilhões do cinema.

No ano passado, para se ter uma ideia, o mundo vendeu 26 bilhões de dólares em DVDs e nada menos que 32 bilhões de dólares em games.

A exemplo do que acontece em Hollywood, o desenvolvimento de um jogo conta com orçamentos milionários e prazos longos.

No trabalho de criação, que chega a levar cinco anos, roteiristas, ilustradores, especialistas em som e efeitos especiais, além do batalhão ligado à tecnologia, trabalham em conjunto para engendrar histórias, imagens e estratégias sofisticadas.

Para jornais como o New York Times, o Le Monde e o El País esse trabalho merece, sim, o mesmo cuidado analítico reservado a outros produtos da indústria cultural.

Na França, curiosamente, a entidade criada para tutelar o cinema, o antigo Centro Nacional de Cinematográfica (CNC), hoje cuida também dos games.

A crítica de um jogo como Infamous inclui desde análises objetivas, como a eficácia dos movimentos dos personagens, até avaliações sobre o sentido da “trama”.

Na semana passada, por exemplo, a revista norte-americana Wired havia publicado uma análise a respeito da sofisticada trilha sonora da nova criação da Sony.

O jogo, resumidamente, tem como heroi um sobrevivente de uma explosão que destruiu Empire City. Depois do acidente, ele começa a desenvolver superpoderes.

Caberá ao jogador definir de que poderes ele lançará mão. Reside nessas escolhas não apenas o seu destino, mas também o dos outros personagens.

O crítico do New York Times garante que não é necessário ser um jogador de altíssimo nível para encarar Infamous.

“Bons reflexos e uma boa coordenação motora entre olhos e mãos são suficientes”, garante.

Blogs que citam este Post

16 de junho de 2009

“Temos um caipirismo comum”, diz Selton Mello, sobre Jean Charles

Ao viver Jean Charles de Menezes, o brasileiro assassinado pela polícia britânica em 2005, Selton Mello foi, mais uma vez, Selton Mello.

Em Jean Charles, exibido nesta manhã para a imprensa, em São Paulo, o ator transforma o eletricista mineiro numa figura marcada por um humor desengonçado e por uma energia discreta.

Quando o filme começa, nos perguntamos: seria esse Jean Charles ou será esse o Selton de filmes como Meu Nome Não É Johnny ou Os Desafinados, para ficar em apenas dois exemplos.

Na entrevista coletiva realizada no início desta tarde num hotel da região dos Jardins, em São Paulo, o ator, de alguma maneira, admitiu que a resposta pode ser “sim” para as duas perguntas:

- Não tive acesso a nenhuma imagem do Jean em movimento. Tentei reproduzir um pouco as histórias que ouvi. Mas nasci em Passos, sul de Minas, e a maneira como ele se assombrava com a cidade não é muito diferente da minha. Temos um caipirismo comum.

O Jean que o filme traz à tona é um jovem cheio de pique, de ideias, e metido em alguns trambiques.

Para Selton, o formato que emprestou ao personagem é, apenas, uma maneira de celebrar a vida daquele jovem aventureiro:

- O Jean era a força principal daquela casa, era o cara que não transparecer a solidão e a saudade do Brasil. Ele era um cara muito ativo. Mas o Henrique (Goldman, o diretor) corria o risco de glorificar o Jean. E não fez isso.

Goldman, que vive em Londres desde 1991 e trabalha como documentarista, diz que seu intuito, desde o início do projeto, era, de fato, celebrar a vida das comunidades brasileiras no exterior.

Para se ter uma ideia, no Reino Unido vivem, hoje, cerca de 200 mil brasileiros.

Goldman e o roteirista Marcelo Starobinas, para construir o filme, foram viver esse pequeno Brasil que a cidade esconde:

- Eu queria mostrar que os imigrantes não são só coitados. Eles são aventureiros também. Eu queria celebrar isso tudo e não lamentar o fato dessas pessoas irem fazer trabalhos que os europeus não querem fazer.

Sobre o assassinato de Jean, confundido com um terrorista e morto numa estação de metrô, a tiros, o cineasta pondera:

- Tentaram politizar o episódio, mas ele não tem nada de político. Simplesmente, mataram um cara por engano, de uma maneira estúpida, inaceitável. Mas o filme não é um grito contra o império britânico. Eu quis foi contar a história de um imigrante brasileiro em Londres. Também não podemos nos esquecer de que a polícia brasileira matou, em 2005, 225 civis.

O roteirista Starobinas diz, ainda, que se sentiu obrigado a andar numa linha fina:

- Sim, foi um absurdo o que fizeram com o Jean, foi um absurdo tentarem acobertar os erros da polícia. Mas tínhamos que dar o braço a torcer: a Inglaterra é um país civilizado e também por isso o caso virou um escândalo. Aqui, quantas pessoas são assassinadas pela polícia sem que saia uma linha nos jornais?

Jean Charles, que entra em cartaz no Brasil no próximo dia 26, é narrado de maneira convencional e cronológica. Sua maior força está na pegada documental de algumas cenas.

Dos imigrantes que vivem seus próprios papeis, como Patricia Armani, prima de Jean, à atmosfera da “pátria recriada” num país de cor cinza, o filme joga luz sobre uma Londres desconhecida de quase todos nós.

Os atores Vanessa Giácomo e Luis Miranda, como Vivian e Alex, primos de Jean, também são pontos altos de mais essa história real que o cinema brasileiro (neste caso, com co-produção britânica) reinventa, sem maiores vôos, em forma de ficção.

Blogs que citam este Post

15 de junho de 2009

Joshua Bell: a face pop da música erudita

Joshua Bell é um virtuosi. Violinista prodígio, daqueles que desde a infância tocam como alguém predestinado, é também um pop star.

Bell lota salas de concerto mundo afora, recebe cartas de fãs apaixonadas e faz comerciais para marcas como Mont Blanc e HP.

Há dois anos, virou um dos recordistas de visitas do You Tube ao fazer uma performance numa estação de metrô (veja aqui o vídeo).

Representante de uma nova categoria da música erudita, a dos virtuosi-celebridade, onde se encaixa também Yo-Yo Ma, Bell tenta atrair, para as salas de concerto, um público novo.

Não à toa, tocará em 120 países este ano. O Brasil está no circuito.

O violinista se apresentará, com a Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB), sob regência de Roberto Minczuk, no Rio, nesta semana (nos dias 18 e 20).

Nos dias 22 e 23, tocará em São Paulo, no Teatro Alfa, dentro da programação do Mozarteum.

Como costuma acontecer com astros do cinema ou do rock, Bell dispôs-se a dar algumas entrevistas para jornalistas brasileiros. De dez minutos.

Para participar da maratona, o repórter recebia uma espécie de senha, a ser discada, e entrava na fila das perguntas.

Bell, obviamente, não sabe com quem está falando. Mas mostra-se muito simpático.

“É um prazer falar com você… Sim, sim, tenho falado com vários brasileiros.” Sobre as entrevistas em série, admite que, seja qual for o país, seja qual for o jornalista, são quase todas iguais.

“Entrevistas são parte do trabalho. Para quase todos os países onde vou me apresentar, dou entrevistas”, explica.

“É algo importante a se fazer, pois ajuda a vender ingressos e, claro, é sempre melhor tocar para auditórios cheios.”

Diz, delicadamente, que a repetição é fatigante. Mas sabe que, sem a mídia, não teria virado a estrela que é:

- Faz parte do jogo. Dez minutos são insuficientes para qualquer entrevista significativa. Geralmente, já sabem com quantos anos comecei, onde nasci etc. porque já pesquisaram na internet. Uma coisa que todos perguntam é como foi a ação no metrô.

Bell refere-se ao dia em que postou-se na estação L’Enfant Plaza, em Washington, e passou o dia recebendo moedas de quem o ouvia tocar.

Durante a breve conversa, apenas uma pergunta muda a gentil modulação de sua voz.

Por que gravar, novamente, as Quatro Estações de Vivaldi que, segundo o pesquisador Norman Lebrecht, já tem mais de 400 versões?

- O que ele está tentando dizer? Que não precisamos mais de gravações das Quatro Estações? Então não temos razão para continuar tocando música clássica. Minha versão de Quatro Estações é completamente diferente de outras.

Sobre o quanto a beleza física ajuda a tornar seu violino bem quisto pelo público, desconversa:

- É claro que se as pessoas gostam da sua foto, podem ficar mais curiosas para ver um concerto. Mas, na hora, não importa qual é a sua aparência. O que prende a atenção do público é a música que você faz.

De quebra, diz que nem se considera assim tão bonito.

Entrevista feita originalmente para a revista CartaCapital.

Leia também

Para atrair jovens, música clássica recorre a imagens e interatividade

Blogs que citam este Post

12 de junho de 2009

Filme feito na PUC do Rio mostra que boas ideias superam falta de dinheiro

O cinema brasileiro, sempre às voltas com discussões sobre as formas de financiamento, tem algumas lições a tirar da universidade.

Apenas o Fim, que entrou ontem em cartaz, depois de vencer os prêmios de público da Mostra de Cinema de São Paulo e do Festival do Rio, em 2008, é exemplar de algumas das trilhas alternativas que o cinema pode percorrer.

O filme dirigido por Matheus Souza, de 20 anos, nasceu nos corredores da PUC do Rio de Janeiro, onde o jovem cursa cinema.

A faculdade emprestou o equipamento e impôs uma única condição: as filmagens deveriam acontecer no campus. Assim foi feito.

Com um orçamento de cerca de 8 mil reais e colegas como figurantes, Matheus fez um filme que, apesar da natureza de exercício escolar, respira uma autenticidade capaz de encantar os espectadores.

No Festival do Rio e na Mostra de São Paulo, parte da empolgação do público nasceu, certamente, na desengonçada presença do diretor às sessões.

Ele, que fala um pouco à la Woody Allen, tratava seu trabalho quase como aventura e, assim, angariava simpatias antes mesmo do filme ser projetado.

Mas, claro, o que definiu os prêmios não foi a graça de Matheus Souza, e sim a graça do filme.

Apenas o Fim mostra os últimos momentos da relação de um jovem casal. A menina (Érika Mader) decide, meio à toa, abandonar a cidade e, por consequencia, o namorado (Gregório Duvivier). O filme se passa nesse dia.

A mise-en-scène é crua e improvisada. Mas a graça dos diálogos acaba por compensar a falta de elaboração cinematográfica.

Absolutamente naturais, os dois protagonistas mantêm uma conversa em ritmo veloz, moldada quase como jogo de perguntas e respostas.

À sua maneira juvenil, Matheus fez um simpático inventário da geração Transformers e dos primeiros anos do resto de nossas vidas.

É claro que nem só de filmes miúdos e simples se faz uma cinematografia. Mas que eles têm algo a ensinar, isso têm.

Blogs que citam este Post

Posts mais antigos »

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol