Terra Magazine

15 de junho de 2009

Joshua Bell: a face pop da música erudita

Joshua Bell é um virtuosi. Violinista prodígio, daqueles que desde a infância tocam como alguém predestinado, é também um pop star.

Bell lota salas de concerto mundo afora, recebe cartas de fãs apaixonadas e faz comerciais para marcas como Mont Blanc e HP.

Há dois anos, virou um dos recordistas de visitas do You Tube ao fazer uma performance numa estação de metrô (veja aqui o vídeo).

Representante de uma nova categoria da música erudita, a dos virtuosi-celebridade, onde se encaixa também Yo-Yo Ma, Bell tenta atrair, para as salas de concerto, um público novo.

Não à toa, tocará em 120 países este ano. O Brasil está no circuito.

O violinista se apresentará, com a Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB), sob regência de Roberto Minczuk, no Rio, nesta semana (nos dias 18 e 20).

Nos dias 22 e 23, tocará em São Paulo, no Teatro Alfa, dentro da programação do Mozarteum.

Como costuma acontecer com astros do cinema ou do rock, Bell dispôs-se a dar algumas entrevistas para jornalistas brasileiros. De dez minutos.

Para participar da maratona, o repórter recebia uma espécie de senha, a ser discada, e entrava na fila das perguntas.

Bell, obviamente, não sabe com quem está falando. Mas mostra-se muito simpático.

“É um prazer falar com você… Sim, sim, tenho falado com vários brasileiros.” Sobre as entrevistas em série, admite que, seja qual for o país, seja qual for o jornalista, são quase todas iguais.

“Entrevistas são parte do trabalho. Para quase todos os países onde vou me apresentar, dou entrevistas”, explica.

“É algo importante a se fazer, pois ajuda a vender ingressos e, claro, é sempre melhor tocar para auditórios cheios.”

Diz, delicadamente, que a repetição é fatigante. Mas sabe que, sem a mídia, não teria virado a estrela que é:

- Faz parte do jogo. Dez minutos são insuficientes para qualquer entrevista significativa. Geralmente, já sabem com quantos anos comecei, onde nasci etc. porque já pesquisaram na internet. Uma coisa que todos perguntam é como foi a ação no metrô.

Bell refere-se ao dia em que postou-se na estação L’Enfant Plaza, em Washington, e passou o dia recebendo moedas de quem o ouvia tocar.

Durante a breve conversa, apenas uma pergunta muda a gentil modulação de sua voz.

Por que gravar, novamente, as Quatro Estações de Vivaldi que, segundo o pesquisador Norman Lebrecht, já tem mais de 400 versões?

- O que ele está tentando dizer? Que não precisamos mais de gravações das Quatro Estações? Então não temos razão para continuar tocando música clássica. Minha versão de Quatro Estações é completamente diferente de outras.

Sobre o quanto a beleza física ajuda a tornar seu violino bem quisto pelo público, desconversa:

- É claro que se as pessoas gostam da sua foto, podem ficar mais curiosas para ver um concerto. Mas, na hora, não importa qual é a sua aparência. O que prende a atenção do público é a música que você faz.

De quebra, diz que nem se considera assim tão bonito.

Entrevista feita originalmente para a revista CartaCapital.

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2 de março de 2009

Rita Cadillac: “Fico chocada com a baixaria”

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Rita mostra o velho rebolado num clube do centro paulistano
Rita mostra o velho rebolado num clube do centro paulistano

Rita Cadillac, mesmo quando sorri, tem os olhos tristes. Aos 54 anos de idade e mais de 30 de rebolado, a dançarina que se auto-define como a “mais famosa bunda do Brasil”, segue trabalhando duro. Na última sexta-feira, ainda com dores nos joelhos, conseqüência do desfile pela X-9 paulistana, dançou sua velha dança para uma delirante platéia de baladeiros paulistanos.

O show de Rita, no clube Caravaggio, região central de São Paulo, foi o auge da noite Trash 80’s, que reproduziu, com bacalhau e abacaxi de cartolina, o Cassino do Chacrinha. Tudo ali era intencionalmente trash. Rita também? “Eu? Eu já tô me acomodando na aposentadoria. Levo tudo isso na brincadeira.”

O show da ex-chacrete é quase uma viagem no túnel do tempo. Ao som de velhos hits, ela empina o traseiro, dá uns rodopios, revira os olhos, manda uns beijos… E pronto. “Ela é quase um revival das pin-up girls dos anos 50. É um pouco a pré-história da nossa televisão”, acerta o cineasta Toni Venturi, autor do documentário A Lady do Povo, que entrará em cartaz nos cinemas em 8 de maio.

Assista ao trailer inédito de “Rita Cadillac, A Lady do Povo”

Falar com Rita Cadillac é como entrar no mundo televisivo e no circo das celebridades pela porta dos fundos. É encontrar, sem máscara, um personagem que o Brasil, há décadas, aplaude, apedreja, ironiza, imita, deseja e despreza. Ela foi chacrete, musa em Serra Pelada e no Carandiru, fez filmes pornôs e chegou a se apresentar em seis forrós num só dia. Mas Rita, olhar melancólico e sorriso contido, está certa de que o pior já passou. Hoje, sente-se cult até.

“Esse documentário foi a coisa mais importante da minha vida. Quando o Toni veio falar comigo, juro que achei que era uma pegadinha. O filme mostra a Rita de Cássia, mostra a pessoa que eu sou e nunca ninguém viu”, diz, orgulhosa. Na era da revista Caras e do Big Brother, Rita Cadillac é, a um só tempo, o brega que ninguém quer ser e é a “quase celebridade” que tanta gente tenta ser.

Em uma hora de entrevista no camarim do Caravaggio, Rita – numa versão mais “de Cássia” que “Cadillac” – tenta mostrar que, como disse Rita Lee, é “uma bunda que pensa”. Ela, no fundo, parece guardar muito da menina pobre, simples e desprovida de especiais aptidões que, quando deu por si, tinha sido colocada no centro do circo midiático. Atravessou a vida em busca da telinha perdida.

Antes de dar início à conversa, ela senta-se num banco alto e, pra escapar das lâminas da roupa preta, que “penicam”, levanta o vestido. Pede um energético pra ficar acordada, conta que passou o dia fazendo compras no Brás e, ao ser perguntada sobre a relação com jornalistas, demarca terreno: “Tem hora que eu percebo que o jornalista quer tirar um sarro. Mas não sou idiota. Percebo o tom. Quando vejo que querem gozar de mim, fico monossilábica, fecho a cara.”

Durante a entrevista, se mostra mais "Rita de Cássia" que "Rita Cadillac"

Durante a entrevista, se mostra mais "Rita de Cássia" que "Rita Cadillac"

Leia, a seguir, trechos da conversa

NASCE UMA CHACRETE

“Eu deixei criarem essa personagem, então não posso me arrepender. Quando eu era menina, tinha vergonha. Tudo que eu botava, a bunda aparecia demais. Aí, quando entrei no Chacrinha, pensei que tinha que fazer uma besteira qualquer pra me diferenciar. O que eu tinha pra mostrar? A bunda. Falei: ‘vou ser a gostosa do programa’. Vivo até hoje disso.”

“Me aconteceu, no metrô, de perguntarem se alguém já me disse que eu era parecida com a Rita Cadillac. Quando digo que sou a própria, olham pra minha bunda pra ver se sou mesmo.” 

Os baladeiros não perdem a chance de registrar essa espécie de "pin-up girl"

Os baladeiros não perdem a chance de registrar essa espécie de "pin-up girl"

 

A RITA DE CÁSSIA
“O documentário mostra uma pessoa que ninguém conhece. Só conhecem a pessoa que eu viro quando estou no palco. Fico ansiosa de pensar no lançamento. Um filme assim passa em sala de arte, né? É um público bem diferente do público que eu tive a vida inteira.”
 
A FASE DOS PORNÔS

“Eu fiz porque precisava do dinheiro. Precisava mesmo. Mas fui pra casa e falei pra mim: ‘Acabou a Rita’. Eu achava que quando o filme fosse lançado eu nunca mais ia ter coragem de sair de casa. Mas, você vê, o Brasil é muito louco. Aconteceu o contrário. Eu comecei a receber mais convites. A partir dali, comecei a me sentir uma artista. Até a Globo – a Vênus platinada, né? – hoje me convida pra umas coisas.


A VERGONHA DA PROSTITUIÇÃO
No documentário A Lady do Povo, Rita chora ao revelar que se prostituiu, aos 17 anos. Até agora, ao relembrar desse momento, enrijece a expressão. Mas diz que, enfim, se sente livre do segredo que carregou por toda a vida.
 
 
“Falar disso me reestruturou como pessoa. Foi uma coisa que me machucou tanto que a vida inteira eu escondi isso. Eu apaguei isso, queria fingir que não aconteceu. É uma coisa péssima, inesquecível. O Toni foi meio psicólogo. E tirou de mim uma coisa muito forte. Na pré-estréia do filme, no Cine Odeon, no Festival do Rio, eu passei o maior nervoso da minha vida. Quando acabou a sessão eu escondi a cara, me encolhi que nem um avestruz. Aí fui super aplaudida. E agora falo disso sem medo.”

Veja o diretor Toni Venturi descrevendo o momento em que Rita chora no filme


A BAIXARIA NA TEVÊ
 
“Agora as dançarinas são adornos de um programa. A gente ficava lá rebolando, mas tinha alguma identidade. Hoje esses programas são a porta de entrada pra uma carreira, que na época nem existia direito. Hoje, tem mãe que diz ‘filhinha, dança a dancinha da garrafa’ e leva a criança pra tevê.”

“A tevê não era tão vulgar como é hoje. Não era mesmo. Tá muito apelativo. No outro dia me falaram de não sei quem que passa o cartão magnético na bunda da outra. Eu posso ter sido chamada de tudo que é nome, mas isso eu não faria. Gente! Você fica meio assim, né? Aí tem mulher melancia, mulher framboesa. Amanhã, vem a mulher jaca. É a geração fruta. Acho que a gente passou do limite do que sempre foi meio vulgar. Eu me choco.”

Antes de seguir para o show, Rita brinca com as “chacretes” que vão acompanhá-la no palco. Algumas das meninas pedem para tirar foto com esse símbolo um tanto demodè da nossa cultura pop. “Eu sempre digo pra elas que o importante, nessa profissão, é a honestidade. Eu nunca menti sobre quem sou. Sou uma dançarina que inventou o personagem da bunda na hora certa.” E no país certo também.

 

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