Terra Magazine

19 de junho de 2009

Fernanda Montenegro encerra peça com elogio ao ministro da Cultura

Quando as luzes se apagaram e Simone de Beauvoir dissipou-se, surgiu Fernanda Montenegro – emocionada, enfática.

Ao fim da apresentação do monólogo Viver Sem Tempos Mortos (com ingressos esgotados desde antes da estreia), na noite de ontem, em São Paulo, a atriz quis falar ao público.

Agradeceu, primeiro, a cumplicidade da plateia, silenciosa e imersa naquelas palavras essenciais que Fernanda, magicamente, nos entrega durante 60 minutos.

Mas a atriz estava política. E quis fazer um agradecimento ao ministro da Cultura, Juca Ferreira, que estava no teatro SESC Anchieta.

- Se o senhor não fosse quem é, se não tivesse nos recebido, nos ouvido, este espetáculo não teria acontecido. Graças à sua assinatura, estamos todos aqui.

Claramente disposta a elogiar a pasta que, não raro, é acusada de perseguir os chamados artistas “consagrados”, a atriz fez questão de enfatizar a disposição de Ferreira ao diálogo.

- O ministro tem embates com os artistas, mas tem uma característica pouco comum entre os ministros: ele é achável. Os ministros, em geral, não são acháveis. E ele é. Inclusive, dentro de um teatro.

O breve discurso de Fernanda acontece num momento de ânimos acirrados no meio cultural.

Em meio à proposta de mudança na Lei Rouanet, responsável por boa parte dos recursos disponíveis para o setor, o ministério encontra-se no centro de debates intensos.

Na semana passada, por exemplo, a Folha de S. Paulo trouxe à tona o caso de Caetano Veloso, que teve um projeto negado pela comissão encarregada das aprovações.

Ferreira declarou, no próprio jornal, que era contra a negativa e que Caetano deveria, sim, ter acesso aos recursos.

Entre o fim da peça e a saída de Fernanda do camarim – eles iriam jantar depois do espetáculo –, entrevistei rapidamente o ministro.

A que episódio a Fernanda se referiu?

Acho que ela se refere ao fato de que eu talvez seja a pessoa que atende telefone com mais facilidade no ministério. Sinto que o diálogo, a acessibilidade, é parte do meu trabalho.

Mas teria havido algum problema para a aprovação do projeto dela?

Sempre tem algum problema. O tempo dos artistas às vezes não corresponde ao tempo burocrático. Tem toda uma lógica da produção que nem sempre coincide com os processos internos.

E eu, na falta de uma ouvidoria, faço um pouco esse papel, tenho um certo contato com os artistas.

É mais ou menos o que aconteceu com o Caetano Veloso?

No caso do Caetano é diferente. Houve uma negativa da comissão, a produção dele entrou com um recurso e eu percebi que havia erros na avaliação.

Nenhum sistema de julgamento pode aplicar para um o que não aplica para outro. A lei não trata da questão de bem-sucedido ou mal-sucedido, se ganha dinheiro ou não.

Por que aplicar em Caetano uma regra que não existe? Então eu resolvi intervir, como já tinha feito com a Maria Bethânia.

Nesse caso, fiquei com a impressão de que essa confusão foi proposital, como parte dos movimentos em torno das mudanças da Lei Rouanet.

É que esse caso indicaria que ficará cada vez mais difícil aos ditos “consagrados” conseguir verbas.

Democratizar é incluir todo mundo, criar possibilidade real de acesso. Você não pode excluir os grandes artistas de um sistema cultural democrático.

Se você exclui os grandes artistas, você faz uma opção equivocada.

Mas criou-se a ideia de que a nova Lei dificultaria o acesso dos grandes artistas ao mecanismo, não?

A cultura democrática, no Brasil, não é muito exuberante. Algumas pessoas temem de fato que isso aconteça, mas, em outros casos, o que aconteceu foi uma industrialização do medo para que a gente não tivesse um bom diálogo com os artistas.

Do mesmo jeito que havia uma busca de intrigar o ministério com os grandes artistas, agora há o inverso. Há uma decepção pelo fato da gente não persegui-los.

Na cultura, teremos que lidar sempre com a complexidade, não com a simplificação. O que se diz é que os grandes artistas não precisam desses recursos. Talvez eles não precisem. Mas nós precisamos deles.

Caetano reduziu à metade os valores dos ingressos. O mesmo aconteceu com a Fernanda. Você não acha que cabe ao ministério contribuir para que um maior número de pessoas veja um monólogo como este?

Não é uma tarefa cultural promover o acesso a este espetáculo?

Blogs que citam este Post

20 de março de 2009

Produtores contestam dados do Ministério da Cultura

Um dia depois da divulgação, pelo Terra Magazine, do projeto de reformulação da Lei Rouanet surgem as primeiras reações à proposta

Sergio Mamberti, Juca Ferreira e Alfredo Manevy, do MinC, estiveram na Funarte esta manhã

Sergio Mamberti, Juca Ferreira e Alfredo Manevy, do MinC, estiveram na Funarte esta manhã

Foi na sede da Funarte, localizada no bairro da Santa Cecília, região central de São Paulo, que o ministro da Cultura, Juca Ferreira, enfrentou os primeiros ataques à proposta de alteração da Lei Rouanet.

Cerca de 20 produtores e artistas, entre eles as atrizes Beatriz Segall e Ester Goes, e o diretor do Itaú Cultural, Eduardo Saron, participaram do encontro há pouco encerrado – sem a presença da imprensa, exceção feita ao blog Babel.

Leia também:
Nova Lei Rouanet terá maior presença do governo
Íntegra do projeto da Nova Lei Rouanet

Para quem o assunto soa árido, ou desinteressante, vale anotar: a Lei Rouanet é responsável por boa parte do que se produz no País. E, para cada 10 reais investidos na cultura, 9 são recursos públicos.

O que está em jogo, neste momento, é o destino do dinheiro de imposto que as empresas reservam à cultura e o caminho que a produção seguirá no Brasil. O projeto de mudança será disponibilizado para consulta pública na segunda-feira 23.

O principal cabo-de-guerra que se verá de agora em diante diz respeito à participação do Estado nesse processo.

Deve o Estado interferir mais diretamente no destino dos recursos das empresas privadas que usam a lei de incentivo fiscal?

O ministério da Cultura terá, de fato, verba para o investimento direto nas ações que considera importantes?

FALTA DE TRANSPARÊNCIA

Odilon Wagner (à esq.) diz que o MinC faz os artistas parecerem "usurpadores" da Lei

Odilon Wagner (à esq.) diz que o MinC faz os artistas parecerem "usurpadores" da Lei

A principal queixa dos produtores presentes ao encontro diz respeito à falta de transparência do MinC.

“A dificuldade de acesso à base de dados é brutal”, disse o ator Odilon Wagner.

“No início da gestão Gilberto Gil, os dados eram mais transparentes, mas foram sumindo.”

Wagner contestou, por exemplo, a campanha do ministério para o fim da concentração de recursos no Sul e Sudeste.

“O diagnóstico mostra que o mecenato cumpre 100% dos objetivos. Mas parece que o MinC está fazendo uma campanha difamatória. A lei foi desenhada para se trabalhar com o marketing das empresas.”

Após ouvir alguns dados que contestam o que tem sido divulgado, Juca Ferreira prometeu tornar pública a base de dados.

De acordo com alguns dos presentes, a informação de que 3% dos produtores concentram metade dos recursos não é verdadeira.

“Os 440 projetos de teatro patrocinados foram realizados por cerca de 380 proponentes”, pontuou o consultor João Leiva. “Apenas cinco proponentes tiveram quatro ou mais projetos.”

Após a exposição, o ministro disse que, a partir de agora, a pasta procurará separar os dados a partir das diferentes áreas – teatro e livros, por exemplo.

PRONTO PARA O CONFONTRO

Bem humorado, o ministro Juca Ferreira irritou-se apenas quando o produtor Paulo Pélico, representante da Associação dos Produtores Teatrais (Apetesp) levantou o caso do Cirque du Soleil, que foi autorizado pelo MinC a captar uma fortuna e cobrava até 300 reais por um ingresso.

Pélico observou que o ministério usou esse caso para “satanizar” a Lei, mostrando sua possível frouxidão, sendo que, na verdade, quem autorizou a captação foi o próprio governo.

Em boa parte do tempo, no entanto, Ferreira procurou transformar os oponentes em aliados, dizendo que todos, naquela sala, tinham uma base comum.

“Temos também uma zona cinzenta de diferenças homéricas, mas é a partir desses pontos comuns que devemos no unir”, defendeu.

“Político, geralmente, chama Jesus de Genésio. A gente quer transparência. A corrupção, na política, começa na corrupção da palavra.”

A conversa de hoje foi apenas o primeiro capítulo de uma guerra que se travará no Congresso e na mídia.

Não se espante se, em breve, atores famosos começarem a dar entrevistas para o Jornal Nacional falando desse assunto que, em geral, parece restrito a especialistas: a Lei Rouanet.

É que são muitos e poderosos os interesses que começarão a se mover na seara cultural a partir de agora.

O resultado desse embate definirá, de alguma maneira, quanto você paga para ter acesso às produções culturais e que tipo de manifestações o Brasil tornará visíveis ou invisíveis.

Blogs que citam este Post

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol