É possível uma livraria viver só da venda de livros?
Na era das compras pela internet, dos downloads e das livrarias transformadas em lugar de venda de CDs e DVDs, um espaço chama a atenção em São Paulo.
Na avenida Paulista, quase esquina com a Brigadeiro Luiz Antonio, sobrevive uma livraria que, na contramão da concorrência, continua a vender apenas livros.
Nascida em 1960, em Santos, e depois transformada também em editora, a Martins Fontes atravessou os anos como uma livraria modesta. O principal negócio da família era a edição.
Em meados dos anos 2000, no entanto, Alexandre Martins Fontes, filho do fundador, Waldir Martins Fontes, decidiu inverter a lógica do negócio e investir nas lojas da avenida Paulista e da rua Dr. Vila Nova, na Vila Buarque.
Na entrevista a seguir, Alexandre fala sobre o negócio dos livros no Brasil.
É possível uma livraria, hoje, viver só de livros? Mesmo livrarias tradicionais de São Paulo, como a Cultura e a Livraria da Vila, aderiram aos DVDs ou CDs.
É possível. Somos a prova viva disso.
Em 2005, decidi investir pra valer na livraria. E eu não queria vender CDs ou objetos de papelaria. Queria atrair o público que verdadeiramente consome livros.
E, para você ter uma ideia, estamos, em 2009, vendendo oito vezes mais do que no final de 2004.
Acho que hoje, esta livraria cumpre o seu papel de fazer o melhor trabalho possível.
O que é uma boa livraria?
É uma somatória de coisas, claro. Mas, quanto maior o acervo, maiores as chances de ser um acervo rico.
Temos aqui 100 mil livros. Entre eles, há 90 mil títulos. Se eu colocasse dois exemplares de cada, eu teria apenas 50 mil títulos.
Isso, para mim, é uma boa livraria. É claro que, no caso dos lançamentos maiores, eu não tenho um só exemplar.
A La Selva, por exemplo, trabalha com cerca de 3 mil títulos. A Fnac, com 30 mil.
Mas a tendência das livrarias é justamente a inversa, não? Ou seja, trabalhar com um número menor de títulos.
Sim. O que é mais trabalhoso? Escolher um número maior de livros, repor o estoque a cada venda ou oferecer o que tende a ser vendido com mais rapidez?
Me parece que vocês são um exemplo da teoria da “Cauda Longa” (do norte-americano Chris Andersen), que defende que a indústria cultural sobreviverá por meio de nichos.
Nosso projeto tem tudo a ver com isso. Metade de nossas vendas é de um exemplar.
No mundo do livro, a lógica da cauda longa é ainda mais verdadeira que no mundo da música. A quantidade de livros publicados é enorme. Quanto mais opções dermos ao cliente, melhor.
As mega-stores, ironicamente, acabaram reduzindo as opções?
As mega têm origem numa teoria criada nos anos 1990, nos Estados Unidos, quando se dizer que seria importante que as pessoas, por terem cada vez menos tempo, fossem a um lugar em que encontrassem todas as opções de entretenimento cultural.
O problema é que essa lógica se estendeu para espaços não tão grandes assim. E aí, simplesmente, você não tem como expor tudo.
Sabe-se que o Brasil é um país que pouco lê. Ao mesmo tempo, o mercado de livros parece crescer. Como se explica isso?
Uma coisa não exclui a outra. Apesar de pouca gente ler, a população é muito grande e essa pequena fatia que lê justifica a publicação.
Além disso, quando um livro estoura, são milhões de exemplares vendidos.
Mas os livros são caros porque pouco se lê, não?
Sim, porque as tiragens são baixas, de 2 mil ou 3 mil exemplares.
Ainda assim, é inegável o amadurecimento do mercado de livros no Brasil.
Estamos, hoje, entre os principais mercados do mundo para a venda de direitos autorais. Publica-se muito.
Aqui na avenida Paulista, há 10 anos, você tinha apenas a Livraria Cultura. Hoje, temos a Cultura, que cresceu, a Martins Fontes, a Fnac, a Saraiva do Shopping Paulista… Significa alguma coisa, não?
