Terra Magazine

15 de maio de 2009

Meia-entrada: para presidente do Cinemark, o governo faz caridade com o chapéu alheio

O Cinemark, uma das maiores de redes de cinema do País, esteve no meio de um fogo-cruzado neste blog.

A informação de que a empresa recorreria da decisão judicial que a impede de exigir comprovante de matrícula ou atestado de freqüência para a concessão de meia-entrada, motivou uma centena de comentários dos leitores.

Muitos acusam o cinema de ganância. Outros tantos consideram legítima a exigência, uma vez que a falsificação de carteiras estudantis tornou-se corrente no País.

A partir dos comentários sobre a reportagem Toda carteirinha de estudante é suspeita? Para o Cinemark, sim., fiz algumas perguntas ao presidente do Cinemark no país, Marcelo Bertini.

Na entrevista, realizada por e-mail, Bertini ataca os falsificadores, garante que os ingressos seriam mais baratos não fosse o excesso de meias-entradas e alfineta: “O Estado não deveria dar benesses usando o caixa dos particulares”.

Em que momento a Cinemark decidiu passar a exigir comprovantes adicionais de quem apresenta carteirinha de estudante?

Não foi uma decisão da Cinemark, mas de todo o setor, organizado através da Federação Nacional das Empresas Exibidoras de Cinema (Feneec).

A Feneec fez um termo de cooperação com a UNE e a UBES visando moralizar a questão das falsificações de carteiras e a mercantilização da venda de carteiras conveniadas feitas por redes de fast-food, rádios e empresas de intercâmbio.

A Feneec orientou uma campanha a favor do estudante e contra as falsificações. Em 2007, as carteiras da UNE e UBES passaram a ter um selo Feneec impresso. Em troca, a federação ganhou o direito de auditar a autenticidade da emissão.

Muitos leitores dizem que não cabe à rede fiscalizar a autenticidade do documento. Repetindo a pergunta de um deles: por que não chamar a polícia ou um órgão de fiscalização em caso de desconfiança?

É uma pena que a ação de falsificadores crie a necessidade de controles. Não se trata de fiscalizar a autenticidade do documento, até porque carteirinha não é legalmente um documento, mas de se ter certeza que a pessoa é estudante.

A carteira de estudante, qualquer que seja, não é considerada por lei um documento que tenha fé pública. Ela não tem a mesma validade que o RG ou a carteira de motorista.

A Justiça tem entendido, em diversos casos, que é dever dos cinemas fiscalizar se o portador de um ingresso de meia-entrada é efetivamente estudante.

Evidentemente, cabe a quem está dando o benefício, que é um crédito em dinheiro, fiscalizar se a pessoa é realmente titular do privilégio.

Para a UNE, a postura do Cinemark visa obstruir o uso da meia-entrada. Houve uma diminuição na porcentagem de “meias” após a implantação da medida?

O objetivo não é obstruir o uso, mas dar a meia-entrada apenas para quem tem direito.

Nosso objetivo é dar o benefício para todos que têm esse direito e, ao mesmo tempo, mostrar que esse benefício não deve ser objeto de mercantilismo por empresas oportunistas que vendiam carteirinhas.

O estudante não precisa de carteirinhas para ter a meia-entrada, precisa apenas ser estudante.

Se não houvesse meia-entrada, a rede diminuiria o valor dos ingressos? Se sim, em até quanto?

A Feneec e a Abraplex, representantes dos exibidores, assinaram no final de 2008 uma carta em que se comprometem a reduzir os preços caso seja aprovado o projeto de lei, que tramita na Câmara. A Cinemark pretende seguir a decisão do setor.

Muitos leitores criticam o preço da pipoca e do refrigerante do Cinemark. Publiquei aqui uma entrevista com o pesquisador norte-americano Jay Epstein em que ele diz que o verdadeiro lucro dos cinemas está na pipoca. É isso mesmo?

Com o crescimento de 30% para 70% do total de meias-entradas a partir da explosão das carteiras falsas, a pipoca passou a ser mais uma fonte de financiamento dos cinemas.

Nenhum cinema no Brasil hoje se paga só com os ingressos.

Vocês acham que o benefício da meia-entrada deveria ser subsidiado pelos órgãos públicos?

Não se trata de subsídio aos cinemas, mas ressarcimento. O Estado  não deveria dar benesses usando o caixa dos particulares.

O prejuízo não é apenas da sala, mas dos produtores, distribuidores, trabalhadores da indústria e do fisco que, com a queda da receita, arrecada menos impostos.

Ao mesmo tempo, encarece o ingresso e afasta o trabalhador.

Nos cinemas da rede, que porcentagem dos ingressos é vendida com carteirinha? O índice varia de região para região?

Porto Alegre, onde o benefício do crédito em dinheiro para o estudante é regulado e não se estende a todos os dias da semana, tem preço de ingresso bem menor que Curitiba ou São Paulo.
Em São Paulo, o percentual de meia-entrada passa de 70% do total de ingressos vendidos. Em Porto Alegre, não chega a 50%.

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